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agosto 30, 2004

Quando a Direita Pensa a Esquerda - um bom tema para debate


EDUARDO PRADO COELHO, na sua coluna no Público (30 de Agosto de 2004),reflecte sobre temas relevantes para o debate em curso no PS.Que avaliação deve ser feita dos anos de governação do PS, sob a liderança de António Guterres? Qual o significado actual dessa fase da vida do PS? Como se posicionam os vários candidatos perante as opções tomadas nesse período histórico? O que diferencia os candidatos?

Segue-se o texto integral, aberto a comentários:

«Um dos aspectos mais curiosos no actual debate no interior do Partido Socialista, na disputa para o lugar de secretário-geral, é que a direita não se cansa de teorizar sobre o que a esquerda não deveria ser, e, de um modo mais tímido, sobre o que a esquerda deveria ser. Ora qual é a conclusão desta aturada reflexão? Vendo os teorizadores verifica-se que a esquerda, para ser verdadeiramente actual, teria de ser a direita. Porque na concepção pluralista que dizem defender só a direita tem legitimidade para existir politicamente. O resto são velharias. Mesmo José Sócrates, que poderia ter alguns aspectos que a direita valorizasse, é no fundo um arcaico. Porquê? Porque é de esquerda.

Neste contexto há muitas referências ao chamado "guterrismo". Mas será que isto significa alguma coisa? Há um primeiro Guterres cuja actividade arranca com uma importante iniciativa; os Estados Gerais. E que tem um programa amplamente positivo. Há um Guterres que mete os pés pelas mãos na questão da interrupção voluntária da gravidez (ponto em que Alegre ou Sócrates são extremamente claros). Há um Guterres que se desmotiva ao não obter a maioria absoluta e que multiplica truques para sobreviver ("o queijo limiano") e deixa arrastar as questões (a demissão de ministros ou a situação da RTP). O "guterrismo" primeiro tem coerência ideológica. O "guterrismo" final é o desastre em vários episódios. Como emblema ideológico foi perdendo consistência.

Daí que dizer, como faz José António Lima no "Expresso", que a candidatura de Alegre pretende, reunindo "os descontentes, deserdados e desadaptados do PS" (o que é manifestamente um disparate), opor-se ao "guterrismo social-cristão" não faça grande sentido senão no museu dos lugares-comuns. Em certos aspectos, Sócrates está mais à esquerda do que Guterres (em quase tudo o que diz respeito a valores éticos), noutros aspectos está mais à direita. Pode-se mesmo afirmar, como faz Ana Sá Lopes no PÚBLICO, que "Alegre e Sócrates pensam mais ou menos o mesmo sobre as 'questões estruturais'". O que demarca as duas candidaturas é que Sócrates vem do exterior do socialismo para o socialismo, enquanto Alegre vive por dentro a evolução do socialismo.

Ora a questão da memória e do passado não vale como programa para hoje, mas, sim, como ponto de partida que enraíza numa certa tradição da esquerda e que dá uma densidade cultural e doutrinária que Sócrates não parece ter (o que não quer dizer que não haja no programa de Sócrates, o que foi sublinhado por Vital Moreira, pontos positivos - como, por exemplo, a separação da construção civil dos lucros das autarquias).

O essencial consiste em encontrar um critério de discriminação. Tenho sugerido que ele é cada vez mais a questão da liberdade de escolha concreta, em todos os domínios, que se coloca a cada um de nós. Ora a liberdade estritamente económica é o principal inimigo dessa liberdade concreta que a esquerda defende.

Publicado por Manuel Alegre às 03:39 PM | Comentários (8)

agosto 28, 2004

Manuel Alegre na Madeira: um êxito que terá consequências

A visita de Manuel Alegre à Madeira atingiu plenamente os objectivos que o candidato se havia proposto. Eis a síntese divulgada pela Rádio Renascença (27-08-04):

"Acho que as instituições da República têm sido muito complacentes com as posições tomadas pelo presidente do Governo Regional da Madeira, Alberto João Jardim. Todas as instituições da República, todos os presidentes da República e todos os governos, inclusivamente os do PS", disse Manuel Alegre.

Alegre, que falava na sessão de apresentação da sua candidatura aos militantes e simpatizantes socialistas madeirenses, responsabilizou Alberto João Jardim pela falta de clima democrático na Região.

O candidato à liderança do PS considerou mesmo que os socialistas madeirenses, ao terem de se bater com Alberto João Jardim e com o PSD-Madeira, têm um dos mais difíceis combates políticos em Portugal e na Europa.

Por outro lado, realçou que apesar de a autonomia ser "uma das grandes conquistas do 25 de Abril" esta "é inseparável do Estado de Direito, das liberdades e garantias individuais".

"A maneira como aqui [na Madeira] tem sido exercido o poder, desvirtua, perverte e subverte a autonomia", disse Manuel Alegre.

O histórico socialista acusou Alberto João Jardim de viver do sistema que há 30 anos diz combater: "Esta situação não é normal na democracia portuguesa, isto é uma deriva da democracia portuguesa".

Disse ainda que não virá à Madeira "dar palmadas nas costas do dr. Jardim ou ceder às primeiras exigências que fizer".

Publicado por Manuel Alegre às 10:31 PM | Comentários (4)

RESPOSTAS DO CANDIDATO ao Correio da Manhã

Regista-se aqui a entrevista ao Correio da Manhã em que Manuel Alegre deu resposta a questões relevantes, cujo debate tem plena justificação.Segue-se o texto integral:

"Manuel Alegre, candidato a líder do PS, garante que só uma situação de emergência no País e no PS o fez entrar na corrida à liderança do partido. Não poupa críticas a José Sócrates, a quem acusa de estar demasiado preocupado com o “politicamente correcto”. Lamenta não ter chegado a acordo com João Soares, mas garante que vai até ao fim. Mostra-se também preocupado com o risco de as eleições internas não serem inteiramente justas e promete manter-se atento.
Jorge Godinho

Correio da Manhã – O que o levou a avançar para este desafio nesta altura da sua vida?

Manuel Alegre – Nunca foi um projecto de vida meu. Foi uma emergência, pela situação do País, da própria democracia e do PS e também, não vou ser hipócrita, pela candidatura do meu camarada José Sócrates, que, em meu entender, deslocou muito o partido e criou um vazio em que muita gente não se sente representada. A candidatura de João Soares já estava anunciada, mas era alternativa a Ferro Rodrigues. As pessoas que estiveram com Ferro, ainda que se situem na área política de João Soares, acham que ele não é suficientemente congregador. Creio que o meu camarada Sócrates, com quem não tenho nenhuma questão pessoal, não tem consistência nem experiência políticas para poder travar um combate destes numa altura destas. Foi até a minha filha mais nova que me disse: ‘pai não podes negar o sentido da tua vida’.

– Afirmou que nesta eleição está em causa a própria ideia do PS, o que quer dizer?

– Está em causa o papel do PS não apenas como partido de alternância, mas como um partido alternativo. Uma das coisas que degrada a democracia é as pessoas votarem pela mudança e depois afinal ficar tudo na mesma. Quem vota do PS espera algo de diferente, não apenas no estilo mas no conteúdo das políticas. Sobretudo no conteúdo das políticas sociais, que é o que faz a diferença.

– E que alternativa é essa que José Sócrates não pode protagonizar?

– Essa alternativa tem de ser um novo conceito de Estado estratega. Nós aceitamos a economia de mercado, mas o Estado deve ser promotor de serviços públicos que permitem a consolidação das políticas sociais. E deve fazer mudar aquilo que realmente faz mudar: a cultura, a educação, a qualificação das pessoas. Nós somos pela economia de mercado, mas não somos neoliberais. O PS não pode confundir-se com um partido conservador.

– E acha que José Sócrates vai levar o partido por esse caminho?

– Não o levaria inteiramente. Não vou dizer que Santana Lopes é igual a José Sócrates. São personalidades distintas, mas nas entrevistas que vi até agora, acho que ele tem a preocupação do politicamente correcto, da imagem, uma preocupação de não chocar.

– O chamado socialismo moderado?

– Eu sou um socialista moderado. Eu sou daqueles que em 1975, com o meu camarada Mário Soares, me opus à deriva totalitária da nossa Revolução. Fomos nós que garantimos a liberdade e a democracia. Isso é ser moderado. Ele diz que é um socialista moderno, mas o que é que isso quer dizer? Depois da queda do muro de Berlim e do colapso da União Soviética houve uma grande oportunidade histórica para os partidos socialistas, mas eles não criaram políticas alternativas e em muitos países europeus abriu-se o caminho a correntes populistas de direita. A globalização avançou muito depressa e os socialistas deixaram-se colonizar pelo neoliberalismo. É preciso fazer a diferença.

– É a sua longa carreira política que vai utilizar como principal argumento junto dos militantes?

– Os militantes sabem que eu não me candidato por mim. Sabem que estou a fazê-lo por uma certa ideia do PS, pelo País e pela democracia. Sabem que estou a fazer neste momento um sacrifício a todos os pontos de vista e eu, quando travo um combate travo-o com gosto, não vou a feijões. Eles conhecem a minha experiência política que vem da resistência e dos combates pela liberdade já depois do 25 de Abril.

– Se vencer as eleições será candidato a primeiro-ministro?

– Eu assumo todas as responsabilidades de acordo com a vontade do partido, embora eu ache que se deva fazer uma reflexão sobre isso. Se ganhar as eleições, conduzirei a batalha contra Pedro Santana Lopes. Nós não podemos entrar num excesso de personalização da política. Os primeiros-ministros não são eleitos nos congressos, nem sequer nas eleições para deputados. Por isso é que Santana Lopes é primeiro-ministro. Um primeiro-ministro que não é líder partidário evita, por exemplo, a governamentalização do partido pelo Governo e permite que o partido mantenha uma certa independência crítica em relação ao Governo.

– Já tinha dito que não era candidato a secretário-geral, que não era candidato a primeiro-ministro... que outras surpresas podemos esperar? Uma candidatura à presidência da República?

– Nós nem sempre escolhemos a nossa vida. Se há um ano atrás me tivesse perguntado eu jurava-lhe sobre a Bíblia que não era candidato a secretário-geral. Eu já não digo mais nada, porque fui colocado em circunstância de tal ordem que não ficaria bem comigo mesmo se dissesse que não aos meus camaradas. Eu recebi telefonemas de pessoas a chorar. Tenho pessoas que oferecem as férias para a minha candidatura. Já não digo que não a mais nada. O que digo é que não é obrigatório que o líder do partido seja candidato a primeiro-ministro. O engenheiro José Sócrates não gosta que se diga, mas na candidatura dele também há pessoas com muito melhor perfil para candidato a primeiro-ministro, como António Vitorino ou Jaime Gama.

– Mas não estaria a minimizar o papel dos militantes?

– Bem, estas eleições vão servir também como um teste ao PS para percebermos que partido é que temos. Há as estruturas dirigentes, mas depois há 75 mil militantes e essa é a minha preocupação. Quantos é que vão votar? Oiço dizer neste momento que só oito mil é que pagaram as quotas, mesmo que sejam 20 mil não pode ser. Temos de encontrar maneira para que vão votar em massa, senão não haverá uma genuína expressão da vontade democrática do partido.

E também acho muito estranho outra coisa. Como é que, de repente, todas as estruturas partidárias aparecem a apoiar um candidato? Ele diz que não preparou nada, mas toda a gente sabe que, pelo menos alguém por ele andou a preparar a candidatura.

– Está com medo de que as eleições não sejam justas?

– Ainda há pouco falei com João Soares porque nós temos preocupações quanto à forma como é feito ou não o pagamento das quotas dos militantes. Em congressos distritais anteriores, sobretudo numa determinada região, houve pessoas que andaram a pagar as quotas dos militantes por eles e isso não pode ser. Vamos estar atentos. Não estou a responsabilizar pessoalmente José Sócrates. Acho que ele tem todo o interesse em disputar isto com transparência e clareza, mas também há muita gente que não alinha com ele por convicção, alinha porque pensa que ele vai ganhar.

– Já disse que com José Sócrates o partido dará uma guinada de 180º à direita, aconteceu o mesmo com António Guterres?

– Não. O engenheiro José Sócrates veio da JSD, o que não é pecado nenhum, muitos de nós viemos de outros caminhos, eu e Mário Soares também andámos pelos comunistas... Mas António Guterres é um homem que tinha escola do partido, fez toda a sua formação política no PS desde 74/75. Veio dos meios sociais católicos, tinha uma sensibilidade social muito autêntica. Era um homem mais dialogante, mais aberto, muito mais formado. Era muito jovem mas participou na batalha pela democracia, lembro-me de andar comigo a colar cartazes.

– Por que é tão crítico em relação a José Sócrates e não a João Soares?

– João Soares é da minha família política. É filho de um dos meus melhores amigos. Já o meu avô andou nas lutas pela república com o avô dele.

– Então o que os distingue nesta candidatura?

– Primeiro, ele apresentou a candidatura contra Ferro Rodrigues e eu estava com ele. Depois constatei que muitas das pessoas que me apoiam não se reviam na candidatura dele, não era suficientemente apelativa e abrangente e isso a culpa não é minha. Agora, a ideia de partido e algumas concepções fundamentais do socialismo democrático as diferenças não são abissais.

– Desistir está fora de questão?

– Está fora de questão.

– Mas indo os dois a votos, não estão a dar vantagem a José Sócrates?

– De certa maneira sim, mas, como diria António Guterres, é a vida. Houve uma tentativa de chegarmos a acordo. Falámos diversas vezes, mas ele mantém o propósito de levar a candidatura até ao fim e tem mérito nisso. Temos afinidades quanto à ideia de partido, vamos ver depois no Congresso. Agora a votos vamos separados com certeza.

– Se não vencer está disponível para trabalhar com João Soares ou José Sócrates?

– Com João Soares com certeza. Com José Sócrates depende. Depende de como correr o congresso. Ele já deve ter percebido que não congregou figuras fundamentais do PS, além de mim. Não vou abdicar das minhas ideias. E vou meditar muito, a minha vida tem de ter um sentido, não vou dar a minha caução a um partido desvirtuado.

'FERRO SERIA MELHOR PRIMEIRO-MINISTRO QUE LÍDER DA OPOSIÇÃO'

Manuel Alegre ainda lamenta a demissão de Ferro Rodrigues da liderança do partido e garante que estaria ao seu lado até hoje. “Estive com ele e estaria até ao fim”, afirma, “estou convencido de que seria melhor primeiro-ministro do que foi líder da oposição”.

Embora reconheça que o ex-secretário-geral do PS “afunilou” o partido e não fez a reforma necessária do sistema, considera que Ferro Rodrigues “foi um bom ministro e como primeiro-ministro marcaria a diferença”. Algo que, em sua opinião, não é inédito na política portuguesa. “Há pessoas que se revelam melhores primeiros-ministros que líderes partidários. Durão Barroso, por exemplo, ou o próprio Cavaco Silva”.

Por isso mesmo mostra-se satisfeito com o apoio dos chamados “ferristas”. Um grupo que se uniu para apresentar apenas uma moção ao congresso, marcado para o início de Outubro, e que acabou por apoiar a sua candidatura. Desse grupo faziam parte Paulo Pedroso e Vieira da Silva, mas nem um nem outro surgiu a seu lado.

Manuel Alegre justifica a ausência de Paulo Pedroso com a necessidade de o deputado passar agora por uma fase mais discreta na sua carreira política devido ao processo da Casa Pia. Já Vieira da Silva, o candidato lembra que é um dos responsáveis pela organização do Congresso, “é natural que queira manter a sua independência”.

CM-3 de Agosto 2004

Publicado por Manuel Alegre às 10:10 PM | Comentários (5)

Alegre e Sócrates: para além das palavras, por Vicente Jorge Silva

Ainda não tive oportunidade de conhecer as moções que Manuel Alegre e José Sócrates apresentaram esta semana ao Congresso do PS. No entanto, sem prejuízo de uma futura reflexão sobre essas moções, o significado político das duas candidaturas não depende da natureza dos textos apresentados.
Prezo muito o valor das palavras, mas a verdade é que os compromissos escritos em política se encontram cada vez mais condicionados pela personalidade de quem os assume. É uma das consequências da crise das ideologias que se acentuou depois da queda do muro de Berlim e de que os partidos de esquerda, especialmente na Europa, estão longe de conseguir superar.
Não desvalorizo a importância das moções e dos programas políticos num debate democrático (por muito pouco participado que este seja). Limito-me a constatar apenas que, no estado actual das democracias, a fidelidade política implica uma relação de confiança pessoal (que pode ser genuína ou meramente interesseira) entre os candidatos a uma eleição e os respectivos eleitores. A personalização das preferências políticas funciona, é certo, para o melhor e para o pior (sem esquecer, neste ponto, as derivas populistas e demagógicas). Mas seria hipócrita pretender que esse factor não é cada vez mais determinante nas escolhas eleitorais.
Ainda há pouco tempo, discutiu-se vivamente em Portugal a legitimidade da substituição de Durão Barroso por Santana Lopes na chefia do Governo. Embora apoiado numa mesma maioria parlamentar e respeitando formalmente as bases programáticas do anterior Executivo, Santana não se submetera a uma eleição ?personalizada? para o cargo que viria a ocupar. Estava, pois, em causa o protagonismo do candidato a primeiro-ministro nas eleições legislativas (apesar de nestas se votarem em partidos e não em personalidades).
É evidente que as preferências e opções políticas (dentro de um partido ou numa disputa envolvendo vários partidos) não são estranhas a pressupostos ideológicos e programáticos com que os eleitores se identificam. Com excepção do eleitorado flutuante do centro - que, todavia, acaba por ser a chave do poder nos sufrágios mais disputados -, as fidelidades e fixações político-partidárias continuam a desempenhar um papel decisivo nas escolhas eleitorais. Só que a influência do factor pessoal, acentuada pela mediatização intensa da vida política, tem vindo a remeter os compromissos escritos, chamem-se eles moções ou programas, a uma função puramente instrumental e quase retórica num debate democrático que, por via disso, se converteu, sobretudo, em duelos de personalidades (e de imagens). É o que acontece também agora no PS.
Para além das moções, o que conta sobretudo é a imagem que cada personalidade se propõe representar e o modo como a representa. Não por acaso, uma parte substancial do debate tem vindo a centrar-se na forma como cada um dos dois candidatos principais se posiciona face ao exercício do poder dentro do partido e na chefia de um futuro governo socialista. Esse é, à partida, um dos trunfos de José Sócrates e um dos pontos mais vulneráveis da candidatura de Manuel Alegre. Sócrates não esconde que o primeiro objectivo (a liderança partidária) é fundamentalmente um meio para alcançar o segundo (a chefia do governo), enquanto Alegre insiste em separá-los, de forma não verdadeiramente convincente.
Sócrates subordina tudo ao seu projecto de poder, propondo-se mesmo desafiar a quadratura do círculo: diz querer um partido renovado e aberto ao exterior, embora não tenha hesitado em negociar os seus principais apoios no interior de um aparelho partidário que, ao longo dos tempos, tem frustrado qualquer veleidade de renovação e abertura. É contra esse aparelho que Alegre declara a sua "insubmissão", apostando num sobressalto dos militantes anónimos que, segundo ele, constituem a alma do PS.
Mas Alegre é um candidato reservado e relutante na sua relação com o poder e é sobretudo isso que o leva a separar as candidaturas a secretário-geral e a primeiro-ministro. Ei-lo condenado, assim, a representar o papel de combatente romântico e guardião do templo dos princípios socialistas, face ao "realismo" pragmático e voraz do seu adversário, disposto a todas as convergências e convivências para atingir o seu objectivo. Para José Sócrates, não há meios que não justifiquem os fins.
A atracção voluptuosa do poder fez concentrar na candidatura de Sócrates um autêntico albergue espanhol de tendências e personalidades vindas dos mais diversos quadrantes. O antigo "enfant-terrible" Sérgio Sousa Pinto, que tantas dores de cabeça deu a António Guterres, aparece como principal "maître-à-penser" do mais dilecto herdeiro do guterrismo e autor da sua moção. Contraditório? Inverosímil? Quem cuida disso? Sousa Pinto convive, sem aparentes estados de alma, com as personagens mais castiças do aparelho partidário, sem esquecer alguns dos seus adversários mais ferozes na já esquecida (ou puramente instrumental?) polémica sobre o aborto. Quem se recorda do protagonismo que então assumiu - e lhe valeu, de resto, um passaporte dourado para o Parlamento Europeu?
Evidentemente, pouco importa o conteúdo da moção que Sousa Pinto escreveu para José Sócrates. Ou importa apenas na medida em que a sua marca "de esquerda" e a sua alegada "modernidade" funcionam como álibi para quem dele precisava para compensar eventuais problemas de consciência. O verdadeiro pólo de atracção da candidatura de Sócrates é a maior solidez das garantias que aparentemente fornece aos aspirantes ao exercício do poder. Tem com ele o aparelho do partido e o favor da exposição mdiática - por mais artificial e plastificada que seja a sua imagem -, além de ter sido lançado por Emídio Rangel como reverso de Santana Lopes. Mais do que isso: corresponde ao perfil "bloco central" que melhor se adequa ao rotativismo do sistema partidário. O jogo dos interesses que circulam dentro desse sistema está assim assegurado.
Ora, Manuel Alegre oferece como contraponto a esta imagem uma outra consistência ética e uma personalidade de muito maior envergadura cívica. Mas tem desde logo contra si o facto de aparecer como representando sobretudo isso - e a já referida relutância em assumir pessoalmente um projecto alternativo de poder. Em Alegre, o que fundamentalmente conta é a atitude reactiva ao arrivismo socrático, o simbolismo de um gesto de inconformidade perante as "combines" inconfessáveis do aparelho partidário, o romantismo da atitude dos que não se rendem à fatalidade dos vencedores anunciados antes do combate. Alegre, aliás, pareceu dar-se por satisfeito quando afirmou, durante a entrega da sua moção, que "esta candidatura já cumpriu o seu papel" e "já ganhou", ao despertar um partido "que estava adormecido". Bastará isso, porém, para compensar a efectiva relação de forças entre "realismo" e "romantismo" dentro do PS - e dar sentido positivo, prático e ofensivo à candidatura de Alegre?
A questão, com Manuel Alegre, é de vontade e ambição efectivas para ser algo mais do que a representação simbólica de um protesto moral. Percebo perfeitamente que ele não se sinta vocacionado para assumir uma alternativa de poder consequente no PS e admiro o garbo quixotesco com que entrou num combate em defesa de princípios e valores do socialismo democrático (combate para o qual, recorde-se, não existiam outros candidatos disponíveis). Mas não deixa de ser um sinal melancólico dos actuais tempos políticos que quem se mostra mais merecedor da nossa confiança não nos apresente um motivo mais substantivo para apoiá-lo do que uma última trincheira de resistência aristocrática ao oportunismo sem princípios dos "parvenus" do poder.

Opinião publicada no Diário Económico, de 27 de Agosto

Publicado por Manuel Alegre às 12:23 AM | Comentários (1)

Boaventura de Sousa Santos sobre a candidatura de Manuel Alegre


A candidatura de Manuel Alegre a secretário-geral do PS é, ao contrário da dos seus rivais, um acontecimento político. A candidatura de José Sócrates é um acontecimento burocrático, o aparelho partidário a procurar sobreviver da única maneira que conhece: através de quem lhe assegura a continuidade. A candidatura de João Soares é um acontecimento pessoal, uma inconformidade quixotesca contra a fatalidade de o pai o ter precedido. É certo que há Bush 1 e Bush 2, mas isso é nos EUA onde, como diz Gore Vidal, em vez de democracia, há uma república dominada pelo dinheiro. A candidatura de Manuel Alegre é um acontecimento político porque lhe preside uma intenção política, a de virar o PS à esquerda, e um projecto político, o de, conjuntamente com outras forças de esquerda, oferecer ao país a alternativa de que carece para garantir o seu florescimento numa UE crescentemente exigente e competitiva.
Esta intenção e este projecto implicam uma reinvenção do PS. As vicissitudes do 25 de Abril dispensaram o PS de formular um projecto de esquerda. Protagonista, em 1975, da luta contra a aventura autoritária do PCP, o PS bastou-se com um projecto de democracia para o país, o que não foi pouco no contexto em que então se vivia. Durante alguns anos este projecto confundiu-se com um projecto de esquerda democrática, por falta de uma alternativa PCP e pela confusão ideológica da própria direita. Em meados de 80, a direita assumiu o seu papel e, a partir daí, o PS passou a estar à esquerda da direita sem ter de ser necessariamente de esquerda. Foi então que da alternativa (que verdadeiramente nunca existiu) se passou à alternância, uma passagem que o Governo Guterres assumiu por inteiro, tal como o faria um eventual governo de José Sócrates. Porém, esta passagem nunca foi totalmente assumida no seio do PS, já que alguns sectores continuaram a ver nela, não a garantia da sobrevivência do PS, mas antes o perigo da extinção deste. A credibilidade desta suposição aumentou recentemente quando um PS atónito verificou que, pela primeira vez em 30 anos, não tinha um amigo na presidência da república e que, portanto, a hegemonia da direita poderá estar de tal modo implantada que dispense a alternância. É desta convicção que parte a candidatura de Manuel Alegre.
São duas as razões principais que podem levar o PS a perder o jogo da alternância. A primeira é que a direita portuguesa tem uma longa experiência histórica, não é burra e, em sua fase democrática, vem construindo há 20 anos um projecto de governabilidade que só ela sabe manejar com competência. A segunda razão é que este projecto – incapaz de se libertar inteiramente do fantasma de Salazar – garante a sobrevivência medíocre de Portugal na UE mas torna impossível o seu florescimento num contexto exigente e moderno. Os Portugueses não estão conformados com esse destino e, como a alternância se dá no seio dele, buscam não a alternância, mas a alternativa. Essa alternativa é, por enquanto, embriónica mas está a ser construída, fora do PS, a dois níveis. Por um lado, com a emergência do Bloco de Esquerda e o seu êxito eleitoral. Por outro lado, com a renovação por que está a passar, a nível local, um PCP, aparentemente estagnado a nível nacional. Algumas das experiências da democracia participativa mais consistentes ocorrem em autarquias comunistas, e é aí que se pode estar a forjar uma nova cidadania inconformada com a mediocridade e a corrupção. Tendo a intuição que o jogo de alternância pode estar perdido, Manuel Alegre aposta na alternativa, esperando que não seja tarde de mais. Não o é certamente para o país, mas sê-lo-á para o PS?


(artigo publicado na revista Visão em 12 de Agosto de 2004)


Publicado por Manuel Alegre às 12:17 AM | Comentários (1)

Eduardo Prado Coelho: razões de um apoio

Ao escrever esta crónica, creio que é necessário começar por dizer que, no âmbito das opções que se colocam ao Partido Socialista neste momento, a minha escolha e o meu campo são aqueles que aparecem representados por Manuel Alegre. Sem hesitações, nem estados de alma. Claramente. Não é que não veja que José Sócrates tem neste momento inúmeras condições para vencer e que os militantes de base se preparam para lhe dar uma vitória explícita. Vejo também - e este é o argumento pragmático mais frequentemente invocado - que Sócrates poderá ser o adversário mais eficaz em relação a Pedro Santana Lopes. Entre os seus apoiantes conta-se gente de grande qualidade, capaz de formar um governo sólido e consistente. E por conseguinte Sócrates poderá aparecer como a personagem mais bem colocada para vencer a direita populista. A não ser que - e esta reserva tem inequívoco peso - os eleitores achem que há demasiados pontos de contacto entre o PSD e este PS e considerem que não vale a pena mudar para algo que está próximo. Pode acontecer.

Pode também suceder que a sequência de erros e desaires do Governo Santana Lopes seja de tal modo clamorosa que seja mais por motivos de estilo, caos e ridículo que a mudança se torna desejada.

Antóno Mexia fez bem em manter Fernando Pinto à frente da TAP. O modo como o fez é que foi completamente desastrado: através de uma fuga de informação. Nobre Guedes tem-se mostrado completamente irrequieto e infantil nas declarações em que se multiplicou. Paulo Portas terá em breve que utilizar submarinos no combate aos incêndios. A saga dos secretários de Estado deslocalizados tem uma ilustração saborosa na guerra entre Santarém e a Golegã. Escolhida esta última, que verificamos? Que reina grande alegria, porque o secretário de Estado da Agricultura disse à dona do café que com a nova Secretaria de Estado teria de aumentar as instalações... Razão tinha "O Inimigo Público", quando imaginava um cidadão da província chegar à sua morada e encontrar na casa de jantar as novas instalações de uma Secretaria de Estado deslocalizada.

Mas entre o formalismo de um nacionalismo partidário (recuperar os símbolos e a retórica antifascista) defendido por João Soares e o socialismo evanescente que parece ressaltar das intervenções de José Sócrates (apesar do enorme esforço para dar espessura às suas concepções ideológicas), Manuel Alegre tem outra memória, outra cultura, outra dignidade e outra força. Podemos dizer que ele representa um certo sector minoritário dentro do PS. Que importa? Em casa dos meus pais havia uma velha empregada que não ia votar porque não sabia quem é que ganhava. O que Manuel Alegre representa dentro do PS não se contabiliza. Podemos pensar que João Cravinho ou Manuel Maria Carrillho são mais "modernos" no discurso. Mas nem a oposição moderno "vs" arcaico, nem moderado "vs" radical são suficientes para enquadrar a formulação daquilo que hoje aparece como essencial para um projecto de esquerda.

Embora os disparates da direita convidem à preguiça, esta é uma ocasião essencial para pretender ir mais longe numa ideia de conjunto para o Portugal europeu dos nossos dias.


EDUARDO PRADO COELHO, Público,
Segunda-feira, 09 de Agosto de 2004

Publicado por Manuel Alegre às 12:12 AM

agosto 25, 2004

Código do Trabalho

Respondo a uma pergunta colocada por Egídio, sobre a posição de Manuel Alegre àcerca do Código do Trabalho. No discurso de apresentação da sua candidatura, foi um dos pontos salientados:
"Não aceitamos o desequilíbrio sistemático das leis laborais em desfavor dos trabalhadores".Também na Moção se desenvolve a matéria, salientando que o Código do Trabalho "deixa 70% dos trabalhadores reduzidos aos seus direitos mínimos", o que para um socialista é inaceitável. Penso que ao longo da campanha haverá condições para explicitar ainda melhor esta questão. Estejam atentos ao que vai saindo no site.
Helena Roseta

Publicado por Manuel Alegre às 09:26 AM | Comentários (7)

carta aberta a António Costa

De: Wanda Guimarães*

CARTA ABERTA A ANTÓNIO COSTA


“OS BARÕES E OS CIDADÃOS”


Meu Caro António,

Longe vão os tempos em que a Elisa Damião e eu te chamávamos o “puto”. Com muita ternura. Eras nessa altura um jovem promissor, inteligente, idealista e cheio de garra que arrasavas corações na Faculdade de Direito. Com amizade segui sempre de perto o teu percurso e a tua carreira política. Hoje és um quadro de relevo, deputado europeu, membro da Comissão Política e da Nacional do Partido Socialista e inúmeras vezes apontado como um seu possível secretário geral. Sempre estivemos do mesmo lado mesmo quando eu já não estava na política activa e me centrava apenas no mundo sindical. Como sabes, só me fez sentido militar, partidariamente, primeiro com Vítor Constâncio, depois com Jorge Sampaio e contigo na FAUL. Confesso que nunca achei muito aliciante ou motivador o chamado período “guterrista”. Reconheço que lhe devemos algumas coisas importantes mas quanto a resultados políticos para o Partido entendo que foi “match nulo” - uma vitória (finalmente) e uma derrota (como corolário da sua saída do governo).

O poder pode muito e é muito sedutor mas não chegou para disfarçar a desoladora realidade: uma espécie de “novo riquismo político” a emergir, o reforço da mentalidade e dos comportamentos “aparelhísticos”, o desleixo do debate político, a desvalorização da ideologia, o vazio das ideias e a completa subalternização dos militantes, para ser simpática e só falar no mais evidente. No entanto teve uma vantagem (terá sido mesmo uma vantagem?) a de reunir num mesmo governo alguns bons quadros oriundos de diversas “sensibilidades” que tinham coexistido até então num clima de alguma fricção (fraterna). Assim chegaste a ministro de Portugal e actualmente és, não um, mas o responsável pela nossa lista no Parlamento Europeu.

Ou seja, com o teu percurso também tens uma quota parte de responsabilidade por aquilo que de bom e de mau (o politicamente correcto seria dizer menos bom!) se tem feito no Partido Socialista. Chegado aqui, deves estar a interrogar-te sobre o porquê desta introdução. Vem tudo a propósito do teu artigo “Um debate sem mistificações” que saiu no “Público”, na passada terça-feira, 17 de Agosto, no qual quiseste puxar as orelhas a alguém ou a alguns e acabaste a puxar ... as tuas e que, além disso, assinaste como simples militante.

É que simples militante sou eu! Percebo que tenhas querido recorrer a essa qualidade mas és um quadro importante do Partido e quer gostes quer não gostes, fazes parte daquilo que na gíria os militantes anónimos chamam “os notáveis, “os barões”, nem sempre com o afecto com que te estou a escrever.

Eis-nos, portanto, ao fim de todos estes anos, cada um do seu lado, posicionados de maneira diferente. Embora remetendo-me à minha insignificância actual nas estruturas de decisão e de poder do partido não posso deixar de lembrar que nas urnas o teu voto vale tanto como o meu. E no fundo é disso que te queria falar.

Uma crise de identidade não é nenhuma vergonha nem tão pouco forçosamente mau, como nos querem fazer crer. O que é nefasto, é não perceber que o mundo mudou, mudou muito e continua a mudar quer queiramos quer não. Até nós mudamos. Meter a cabeça na areia e fingir que está tudo na mesma apenas porque pensamos, numa visão pretensamente utilitária, que serve de imediato os nossos objectivos é a pior resposta que se pode dar. O drama, para nós militantes, é que a candidatura que apoias acha que já tem todas as respostas sem se dar ao trabalho de colocar as perguntas.

Se o fizerem vão perceber que as ideologias não estão ultrapassadas nem pertencem ao passado, são o futuro dos partidos vencedores. Vão perceber que as pessoas estão sedentas por poderem participar num projecto, num projecto mobilizador. Cabe ao Partido Socialista este papel. Por favor, não deixem esse espaço apenas ao futebol! Recoloquem a Política no lugar que ela merece.

Afirmas que o que nos divide não são os princípios, nem os objectivos. Não tenho tanto essa certeza. Talvez no que toca não aos objectivos, mas ao principal objectivo –derrotar a direita – tenhas razão; mas quanto aos outros, não, nomeadamente, quanto à necessidade de termos o P.S. de volta (se leres esta carta até ao fim, como espero, compreenderás o sentido desta expressão).

Sabes o que nos divide? A definição das prioridades. Na nossa vida pessoal como na política, as diferenças são estimulantes e o que constitui factor de distanciamento entre pessoas ou projectos é a elencagem das prioridades e o respectivo lugar que ocupam. E se estamos de acordo que a esquerda não pode renunciar à responsabilidade de governar, porventura, discordamos se o preço a pagar for excessivo. Não aceito que a responsabilidade de governar implique a descaracterização, ou se preferires um termo mais “soft”, a maquilhagem do Partido. Direi mesmo, que se este for o preço a pagar prefiro perder com dignidade socialista, convicta que será muito mais útil para Portugal e para os cidadãos deste país poderem contar, para os defender, com um Partido Socialista de verdade, moderno, actuante e solidário, sem receio de fantasmas ou de se recolocar à esquerda.

Era bom de facto que, como defendes “de uma vez por todas, todos se habituassem à saudável convivência democrática”, mas não chega proclamá-lo e depois fazer exactamente o contrário. O teu artigo é mesmo o melhor exemplo para evidenciar que entre a teoria e a prática o abismo é vertiginoso. Porque é de prática e de comportamentos que estamos a tratar. O que preconizas, uma verdadeira convivência democrática, só pode existir se cada um de nós, interiormente, tiver a capacidade, o discernimento e a humildade de aceitar a diferença, que é um bem que nesta campanha me está a parecer escasso, a começar por ti. A verdadeira arrogância consiste na manipulação de uma suposta “verdade absoluta”, negando a terceiros a possibilidade de acreditarem numa distinta.

Por fim, afirmas que “num partido laico e republicano, não há guardiães do templo, nem barões. Só há cidadãos”. Já agora também existem militantes (eu sei que os militantes são primeiro cidadãos mas também não esqueço que nem todos os cidadãos são militantes). Mas não é esse o cerne da questão.

Meu caro António, conhecendo tu a actual situação do Partido, só é possível produzir uma frase como esta por mero ardor literário. Há barões, claro que os há e guardiões dos templos e guardiões dos interesses e mercadores de favores e muitas outras modalidades que, infelizmente no PS, como nos outros partidos têm proliferado. Negar a evidência é desistir de mudar e desistir de mudar é resignar-se.

Para mim a palavra resignação não cabe no léxico socialista. Porque, no meu conceito, ser socialista pressupõe uma disponibilidade total para não fazer de conta, para não aceitar só porque é fácil ou porque rende mais ou porque se ganha mas sim lutar pelo que é genuíno ainda que difícil, por uma mudança partilhada e construída por todos.

É, fundamentalmente, por estas razões e em nome destes ideais/objectivos que só poderia apoiar o Manuel Alegre. Não fazia, para mim, o menor sentido, renegar aquilo que tentei, coerentemente, preservar nas minhas escolhas ao longo da vida: que são as pessoas com passado, ideais e convicções, pessoas que nunca desistem da luta, sobretudo, quando ela é difícil que nos permitem numa visão de esperança, acreditar.

É de facto insólito que alguns que não gostaram/criticaram a decisão do Presidente da República de não convocar eleições, argumentando que era pouco democrático que uns tantos “barões” do PSD (há-os em todos os partidos) escolhessem o futuro Primeiro Ministro quando essa responsabilidade caberia por direito ao Povo Português, achem agora de uma total normalidade democrática, que “x” membros (somando todos os responsáveis do PS a nível nacional, incluindo o aparelho e as federações, serão quantos, mil?), se substituam à totalidade dos militantes, indicando à partida um vencedor.

Se subtrairmos esse hipotético número ao total dos militantes anónimos teremos qualquer coisa como 76.000 votos, ou seja 76 vezes mais. È por isso da mais elementar sensatez, de vez em quando descerem à terra e deixarem os militantes decidirem. Um/a militante um voto. Nem mais.


Dêem-nos oportunidade de participar. Partilhem das nossas angústias e preocupações, aprendam a ser humildes e a ouvir. Oiçam a voz dos militantes e das pessoas em geral. Cada uma representa uma história de vida e tem algo importante para transmitir. Aprendam a valorizar os/as que lutam todos os dias por uma vida melhor, os/as que pouco ou nada possuem a não ser a sua vontade e as suas convicções que com muito empenho e amor colocam ao serviço do Partido socialista e das pessoas.

Porquê? Porque acreditam. Porque acreditam num projecto. Poderá talvez parecer estranho para alguns, mas é verdade. Acreditam que é possível construir uma sociedade mais feliz e equilibrada mas sobretudo acreditam que o seu modesto contributo é importante para a sua concretização. Nós, com o Manuel Alegre acreditamos.


Cascais, 22 de Agosto de 2004


* sindicalista, militante de base do PS

Publicado por Manuel Alegre às 09:18 AM | Comentários (5)

agosto 23, 2004

Estado Estratega

artigo publicado no Público,Por JORGE BATEIRA
Domingo, 22 de Agosto de 2004

Algumas declarações de Manuel Alegre como candidato à liderança do PS têm sido entendidas como remetendo para os tempos do planeamento indicativo, em que o Estado detinha um importante sector produtivo e a política económica se revelava eficaz para estimular o crescimento e atenuar os ciclos económicos. Assim, o PÚBLICO (6 Agosto) achou saudável que se "temperem os velhos pergaminhos do socialismo" com indispensáveis "actualizações" ou "modernizações" e, naturalmente, acabou por questionar cada candidato sobre "os sectores económicos que considera poderem deixar de estar sob controlo do Estado". Sendo este um tema crucial no debate, tentarei mostrar que aquela leitura está informada por dicotomias do passado, o que a torna incapaz de entender o sentido inovador da referência a um "Estado estratega" feita por Alegre.

Antes de mais, é preciso esclarecer que os mercados são uma construção social, não resultaram de uma qualquer ordem natural. Como bem mostrou Karl Polanyi, é falsa a ideia de que "no princípio era o mercado". Apenas os economistas de matriz ideológica neoliberal continuam a raciocinar como se fosse possível haver mercado sem intervenção pública. O chamado "mercado livre" é sempre um mercado com alguma intervenção reguladora do Estado, por vezes uma intervenção tão consensual que passa despercebida.

São bem conhecidas as limitações dos mercados. Hoje muitos economistas assumem que, embora o mercado seja a forma preferencial (alguns diriam natural) de organização da economia, apresenta frequentemente falhas de funcionamento que o Estado tem obrigação de corrigir. Para além da dificuldade em identificar com rigor tais falhas de mercado, tomando por referência um óptimo imaginário sem Estado, no fundo esta posição também não rompe com a ideologia liberal. Não percebendo que sem Estado não há mercado, para estes economistas a intervenção do Estado é uma "impureza", algo como um mal menor. Assim, quando alguns defendem a desintervenção do Estado, na realidade o que defendem é uma outra forma de intervenção que consideram "correcta". O problema é que não existe uma intervenção correcta, a aplicar em qualquer tempo e lugar, como bem se deu conta Joseph Stiglitz com a sua experiência no Banco Mundial. Os mercados são instituições históricas que emergem de uma interacção social concreta envolvendo o próprio Estado. E, não sendo entidades cognitivas, também não tomam decisões sobre o futuro, não elaboram estratégias.

Por outro lado, importa reconhecer as limitações da intervenção do Estado na economia. A qualidade da relação do Estado com a economia está condicionada por vários factores, entre os quais: imprevisibilidade decorrente da mudança tecnológica; dificuldade em encontrar um nível de intervenção adequado para reduzir a incerteza do investimento; criação de efeitos perversos em algumas políticas. Em termos gerais, a crescente complexidade (leia-se: não linearidade das interdependências) das sociedades contemporâneas não permite que o Estado antecipe grande parte dos resultados das políticas públicas, a que acresce a progressiva interdependência à escala global. Esta evolução tem-se intensificado nas últimas décadas e, tendo em conta os problemas que suscita, exige uma reconsideração do papel do Estado em moldes que estão para além da velha dicotomia "Estado versus mercado".

Consciente das limitações do mercado e do Estado, mas também assumindo a sua interdependência, Manuel Alegre veio propor-nos a ideia de um "Estado estratega". Arrumando preconceitos, tanto dos defensores de sempre mais mercado, como dos nostálgicos do Estado de uma idade de ouro, parte-se do princípio que é possível combinar Estado e mercado à medida de cada situação concreta, tendo em vista o desenvolvimento da sociedade. Tal combinação de instrumentos comporta tensões e exige uma contínua reavaliação, o que decorre das limitações atrás referidas. Por outro lado, reconhecendo as interdependências entre os vários mercados (e dimensões da vida social), o que está em causa é a exigência de uma intervenção do Estado que organize essas mesmas interdependências em favor da autonomia e bem-estar do todo nacional. Daí a necessidade de uma intervenção pública de índole estratégica.

Nestes termos, a estratégia nacional é o resultado da interacção entre o Estado e os actores sociais mais dinâmicos na procura de consensos para um futuro colectivo. Trata-se de trabalho conjunto difícil e persistente, muito mais do que de documentos ou princípios genéricos. Por isso mesmo é um processo que necessita de monitorização e avaliação permanentes. Tomando o caso concreto da transformação de que carecem as nossas empresas para se tornarem competitivas, não se trata de conceber um Plano e muito menos um "choque", fiscal ou tecnológico. Do que se trata é de identificar e mobilizar os actores relevantes, horizontalmente e por sectores ou regiões, e de organizar plataformas de negociação dos instrumentos de política mais adequados e das prioridades da intervenção pública em ordem a uma mudança com dimensão estratégica, um processo que terá de incluir a própria Administração Pública.

É evidente que esta concepção de um Estado estratega não é compatível com a discricionariedade da acção governativa que tanto agrada a alguns interesses instalados nos partidos. Também não é compatível com uma Administração desqualificada porque grande parte deste processo só tem eficácia se os interlocutores por parte do Estado forem credíveis. É a credibilidade que levará os actores sociais a interiorizar as metas acordadas e a assumir riscos de mudança. Finalmente, esta visão dialogante só é sustentável com uma vincada autonomia do Estado que lhe permita decidir contra interesses particulares em nome de um projecto político democraticamente legitimado. Ou seja, um Estado estratega é um Estado forte, o que é bem diferente de Estado arrogante, ou de Estado ineficiente.

À luz do que fica dito, parece-me óbvio que a última governação socialista não tinha uma visão do papel do Estado à altura destes desafios. Tanto na salvaguarda da sua autonomia (relacionamento ambíguo com empresários e corporações), como na salvaguarda da autonomia nacional (privatizações que deixaram dúvidas), ou ainda no modo "de cima para baixo" de conceber e executar as políticas públicas (para não falar do negocismo), foi uma experiência que desiludiu. Assim sendo, este é o momento adequado para os socialistas mostrarem aos portugueses que aprenderam com os erros do passado e que, hoje, uma discussão sobre o papel do Estado centrada em nacionalizações foge ao essencial.

Para enfrentar os desafios do nosso desenvolvimento precisamos de um Estado criador de laços de confiança com os sectores mais dinâmicos da sociedade e promotor de confiança e cooperação entre esses mesmos actores sociais. Assim, para os socialistas do nosso tempo, o desafio reside em mudar a forma tradicional de actuação do Estado, em vez de aceitar gerir o Estado que temos, adicionando-lhe programas de investimento no que quer que seja.

Contudo, há uma condição essencial para que esta alternativa ao neoliberalismo possa fazer o seu caminho: é indispensável que a qualidade cívica, técnica e política dos protagonistas do PS seja consistente com a natureza desta visão do Estado. Caso contrário, não se vê como será possível "convocar o que há de melhor na sociedade portuguesa" para construir uma maioria que dê de novo esperança aos portugueses.

Economista, militante do PS

Publicado por Manuel Alegre às 09:29 AM | Comentários (10)

agosto 18, 2004

Não havia necessidade...

Sobre o artigo de António Costa no Público de 17 de Agosto

Escreveu António Costa, no Público de hoje, uma defesa do candidato que resolveu apoiar, José Sócrates, com contornos de ataque e até ofensa a Manuel Alegre, apesar de ele próprio iniciar a sua exposição dizendo que o debate se deve centrar em ideias e nas intenções políticas dos candidatos e não na desqualificação do adversário.
Gasta assim Costa meio artigo a atacar Manuel Alegre, sem aduzir outra argumentação em concreto salvo a sua opinião, nomeadamente atribuindo-lhe um auto-outorgado estatuto de “guardião do templo e de detentor da verdade sagrada.... que ciclicamente é chamado a esconjurar uma nova ameaça de descaracterização do PS”. Alegre tribuno do passado, voz clamando nos desertos em abono de noções ultrapassadas do socialismo, mero D. Quixote que se gasta em sistemáticas lutas “contra moinhos de vento”.
Não refere que concorda ou discorda com a lutas travadas, de que escolhe, sem ser compreensível, a “destruição do sistema público de segurança social” de Ferro Rodrigues, o “elitismo cultural arrogante” de Carrilho ou a Declaração de Princípios de Santos Silva, que insinua ter sido plagiada.
Sabendo-se que Carrilho e Santos Silva estão com Alegre, não se pode dizer que Costa tenha seguido o seu próprio conselho de não enveredar pela desqualificação do adversário. Os adjectivos são objectivamente desqualificadores e ofensivos até.

*

Costa não se desgosta “contra” coisa alguma no Partido, em abono do que chama unidade. A tónica geral é contra os “pensadores”, os “intelectuais” do Partido, os críticos, os que contestam o poder estabelecido, consubstanciados nos camaradas acima referidos. Numa leitura da história próxima do PS em que cada descontinuidade nas lideranças passadas é lida como “fragilização” do partido, apesar de ser a partir delas que o PS se foi, de facto, afirmando como o grande partido que é.
Num populismo que se lhe não esperava, quando os coloca em antítese com as “raízes populares do PS”.
Como se um partido não precisasse de ideais e de ideias sempre em renovação face à dinâmica dos tempos e apenas se pudesse basear numa cartilha fixa, tão desadequada que permite e patrocina todos os chamados “pragmatismos”.
Mas um partido que não pensa, que apenas segue o seu catecismo primordial e aceita sem crítica as decisões das cúpulas, não é um partido político democrático, a funcionar em participação. Mais parece uma espécie de associação de apoio mútuo, um lobby ou um outro esquema para se fazer carreira e onde importam sobretudo os resultados, menorizando os aspectos éticos, os ideais e as causas subjacentes tradicionalmente à existência e funcionamento de um partido político.

A História demonstrou que não basta o nome e mesmo os intuitos dos seus fundadores para os partidos serem, realmente, socialistas, isto é, virados para a sociedade e em especial para os mais desprotegidos, no sentido de uma crescente igualdade e de uma liberdade generalizada, num contexto de solidariedade, de cooperação e não de competição.
É necessário um permanente esforço de repensamento dos seus princípios, dos seus modos de actuação, dos seus objectivos e das suas estratégias, que adeqúem a acção política às realidades mutáveis de cada época e facilitem, quando tiver o poder, a efectiva realização dos seus objectivos.
A História também demonstra que é fácil, sem uma organização interna que incentive a dialéctica e o debate, os partidos transformarem-se em meros pretextos para carreiristas e oportunistas retirarem proventos próprios.

*

António Costa parece estar satisfeito com o PS que existe e supor que a maioria, se não a totalidade dos militantes, o acompanham nesta opinião.
Parece sempre ter entendido as críticas de Alegre como tiques de antigo combatente, sequelas de uma cultura de oposição.
Parece entender as críticas insistentes de Carrilho, Roseta, Magalhães, Neto e tantos outros, como tácticas de conquista de notoriedade, que, de facto, nunca lhes faltou nas respectivas vidas profissionais.
Parece não admitir que haja outras formas de encarar o PS para além da que o “establishment”, a situação, entende como a “boa”, a existente.
Parece nem sequer admitir que elas possam ser tão somente preocupações legítimas de militantes que têm todo o direito e até o dever de se manifestarem perante uma deriva do PS quanto a ideais e procedimentos. De militantes a quem não tem sido dada oportunidade de participarem consequentemente e que se vêm obrigados a organizarem “clubes políticos” paralelos, para poderem discutir, sem pressões, os seus ideais e as suas ideias políticas.

*

Contra esta visão de Costa (e, parece, de Sócrates) de um PS óptimo, unido e adequado ao país que temos, há uma outra que discorda e mesmo alguns militantes, especialmente os mais antigos, que nem se reconhecem no actual partido.
Milhares de militantes querem mudança, mudança que Ferro prometeu e não fez.
Mudança daquilo que António Costa, exactamente, quer manter.
Mais do mesmo.
A que “Sócrates saberá dar continuidade”.
A candidatura de Alegre procura, exactamente, congregar esse descontentamento em torno de uma reforma profunda, a começar no repensamento do que é ou pode ser o “socialismo” hoje, abandonadas as raízes marxistas desde há muito, mas não esquecidos os seus princípios de solidariedade para com os explorados que lhe deram origem.

É certo que, como Costa, há muitos outros militantes que querem manter a continuidade do sistema, o que vem do tardo-guterrismo, o do “pântano”, o do imobilismo de ideias e de acções concretas, o da falta de rumo e de objectivos nacionais, o dos esquemas da corte em que o partido se transformou. Para muitos camaradas esse sistema foi pessoalmente vantajoso. Promoveu-os, protegeu-os, impedindo a ascensão e até por vezes a própria expressão no Partido de outros camaradas, quando e se em discordância com o status quo.
Lembremo-nos do último triste congresso de Guterres, com apupos a todos os que “ousavam” discordar do cânon e mesmo as tristes cenas de, “via secretaria”, impedirem a candidatura de Henrique Neto no Coliseu, faz agora mais ou menos dois anos. Era o “establishment” em toda a sua glória, com 90 e tantos por cento de apoio ao candidato único. A unicidade que Costa diz não querer, mas que, de facto, no PS, apoiou e apoia.

É preocupante.

Esse Sistema, o da unicidade, baseia-se, também, no medo. Muitos militantes temem que, se não demonstrarem “fidelidade” desde já ao putativo líder, poderão perder oportunidades na sua carreira política, no partido ou para lugares de “boys” com que estarão a contar. É a visão do partido como corte, os militantes como cortesãos e a distribuição de cargos públicos como um mandarinato.
Não diferente do que se passa ou passou na coligação agora no poder e nas suas disputas internas recentes quanto a lideranças.

É preocupante.

*

Reconheço que não li nem ouvi todas as coisas que Alegre e os seus apoiantes têm dito sobre Sócrates. Não me lembro de nada que seja desprestigiante, nem de opiniões tão duras como a que António Costa avança sobre os camaradas acima referidos.
O que se tem dito e escrito sobre Sócrates, a quem ninguém retira qualidades pessoais e políticas, é que ele representa a “continuidade” contra a “mudança”, isto é, o continuar com a estrutura, a maior parte dos protagonistas e os processos que foram instalados há uns 7 ou 8 anos pelo grupo de aderentes a Guterres e continuados/consolidados por Ferro.
E que, por enquanto, pelo menos, nada de novo em termos de atitudes ou de ideias trouxe para debate, atitude, aliás, perfeitamente conforme o pressuposto da “continuidade”. Nenhum insulto, nenhum apoucamento, nenhuma “desqualificação pessoal do candidato”, me lembro de ter visto.
Apenas o enfatizar das dialécticas “centro, esquerda”, “continuidade, mudança”, “política de conveniências, política de ideais”, “aparelho, renovação”. Dialécticas onde Sócrates está, inequivocamente, nas primeiras partes dos binómios.

Alegre acusa o estado de coisas existente como não correspondendo ao PS que ajudou a formar. Por falta de ideais, por falta de intuitos de reformas sociais, por se ter cristalizado em meia dúzia de protagonistas, por demasiado carreirismo na sua estrutura, clientelismo no seu aparelho e uma obscuridade no seu financiamento que há que aclarar. Um PS de interesses e de conveniências e não de causas e de ideias de reforma.

Costa não concorda. Está satisfeito com o partido que existe. É compreensível.
Assunto arrumado.

*

Mas há mais. Tece António Costa, depois, considerações sobre o enlevo que tem para si uma maioria absoluta do PS, nas próximas eleições legislativas. Como se fosse desejo exclusivo de Sócrates e dos seus apoiantes e não de qualquer líder partidário em vésperas de eleições!
A maioria absoluta não é coisa que se obtenha apenas por se pedir, ou por se ambicionar. Guterres duas vezes e Ferro uma vez, fizeram-no e não a obtiveram. O PSD pede-a e quere-a sempre.
O partido não pode tão somente basear-se na fé de que vai ter uma maioria absoluta e, quando interrogado sobre o que pensa fazer se apenas tiver uma maioria relativa, dizer que “hoje é consensual reconhecer o esgotamento do modelo de governos minoritários”.
É “tapar o sol com a peneira”, ou seja, afirmar lugares comuns para evitar revelar ausência de estratégia para tais situações.
A atitude política acertada é prever todas as hipóteses e, sem compromisso desde já, não fechar portas que, mais tarde, serão muito mais difíceis de abrir.
Mais do que uma maioria absoluta, que será sempre muito difícil de obter, o que importa é o PS conseguir governar e dinamizar os seus ideais e as suas ideias de governação. E governar com mais competência e transparência do que a actual coligação de Direita.

*

António Costa está no seu direito de preferir Sócrates a Alegre ou a Soares. Sendo aquele o candidato da continuidade e sendo Costa um dos principais agentes dessa continuidade, outra coisa não seria de esperar, até.
E é bom sinal, porque Costa tem sido um bom militante, foi um governante e deputado empenhado e competente e é positivo ver as grandes figuras do Partido distribuídas pelos vários candidatos.
Agora não deve é identificar as posições contrárias, as que querem mudança efectiva no partido (revolução chamou-lhe Alegre) como posições de barões utopistas “arrogantes e aristocratas”.
Não está certo, até porque milhares de militantes de base partilham as opiniões de Alegre e do seu núcleo-duro de apoiantes, entre os quais estão variadas figuras que, como Costa, foram e são deputados nacionais e europeus, ex-ministros e protagonistas nos tempos que precederam os que correm. E que, como Costa, foram e são competentes, dedicados e merecedores da nossa consideração.
O apelidá-los de arrogantes, guardiões do templo ou de barões é não só injusto como ofensivo.
Não havia necessidade, como dizia o outro…..

António Sérgio Pessoa

Publicado por Manuel Alegre às 08:46 AM | Comentários (40)

agosto 16, 2004

Manuel Alegre exige clarificação

> Manuel Alegre defende uma eventual demissão do actual procurador-geral da República caso venha a confirmar-se que a cúpula do
Ministério Público terá promovido fugas de informação no processo
Casa Pia. Em declarações ao Independente, Alegre diz que
ainda não tem “dados suficientes, mas se se confirmar que um assistente do senhor procurador-geral terá promovido fugas de
informação que visavam um líder partidário, isso tem que ter consequências a nível de demissões”. Para esclarecer o caso, o candidato a secretário-geral do PS defende uma “comissão de
inquérito parlamentar”.
Manuel Alegre considera que o caso das cassetes alegadamente roubadas
“configura uma crise do Estado de Direito, se se confirmar que o director da Polícia Judiciária violou o segredo de justiça visando
um líder partidário”, acrescentando que o ataque,na sua óptica, de que foi alvo Ferro Rodrigues é “um crime político”.

Publicado por Manuel Alegre às 11:57 PM | Comentários (1)

Carta Aberta aos Socialistas

Os subscritores da moção "Pensar Portugal", apresentada ao último Congresso do Partido Socialista, reafirmam a sua intenção de participar no debate em curso com vista ao próximo congresso, com o objectivo de contribuir para a afirmação da democracia interna do partido, reforçar o papel do PS na sociedade portuguesa e criar uma nova maioria que coloque o desenvolvimento e o progresso de Portugal na primeira linha das preocupações da vida política nacional. Nos dois anteriores congressos (especialmente no último, em que o número de subscritores da moção foi bem maior), assumimos uma posição critica relativamente à direcção do partido e, antes, do governo, por um imperativo ético e pela compreensão clara de que o PS não estava a servir Portugal e os portugueses da melhor forma. Desde logo, por entendermos ser errada e nefasta a acção que os dirigentes do PS, central e local, costumam exercer junto dos militantes, no sentido de controlar o poder partidário e as sucessivas escolhas feitas, no partido e no Estado, com o consequente prejuízo para a democracia interna e para a perda de qualidade política e cívica. Além disso, porque, desta forma, quer no governo, quer na oposição, o PS pensou e actuou frequentemente na gestão dos pequenos e grandes interesses pessoais e de grupo, nomeadamente através das pontes que criou, ou deixou criar, com o chamado bloco central.

As duas moções apresentadas falam por si quanto ao rigor das análises e das propostas feitas, nomeadamente no que respeita à evolução previsível da vida política e económica de Portugal, que está, como previmos, longe da visão cor de rosa com que os políticos no poder têm procurado enganar os cidadãos e os eleitores. Por isso, agora, na iminência da realização do XIV Congresso do Partido Socialista, quase nos bastaria, infelizmente, acrescentar que a qualidade da representação política em Portugal se continuou a deteriorar, pelo que a generalidade dos Portugueses não se revê nos seus eleitos e espera cada vez menos dos governos. É por isso que, quanto ao próximo congresso, a nossa primeira posição é a de saudar as duas candidaturas a secretário geral, que, seguindo o nosso exemplo em 2001 e em 2003, se opõem à mera transmissão do poder partidário decidida no interior das cúpulas do partido (uma triste característica dos congressos anteriores) e procuram abrir um espaço de debate franco, livre, frontal e aberto no PS.

É, para nós, claro que, além daquelas duas, há uma terceira candidatura que representa a continuidade das práticas que rejeitamos: o sistemático controlo partidário que conduz à perpetuação no poder (no Partido e, ciclicamente, no Estado, a nível central ou autárquico) das mesmas pessoas. Essa foi uma das heranças negativas da passagem do PS pelo poder, assim desperdiçando uma oportunidade singular de mudar Portugal e fazendo comprometer a credibilidade dos valores e dos ideais do socialismo democrático junto de largas camadas da população portuguesa. Dessa forma se abriu o caminho aos governos de direita. Erros que prosseguiram, depois, na oposição, onde o radicalismo verbal tem escamoteado, com frequência, o vazio das ideias, acabando, não raro, por dar razão aos que dizem que assim se escondem, por detrás de jogos de palavras, os interesses que atravessam o PS e o PSD, bem como a perda de qualidade e o imobilismo demonstrado pelas estruturas do partido um pouco por todo o País. Prova disso é o facto de praticamente todas as federações do PS continuarem a apoiar uma quase candidatura "oficial" ao próximo congresso; porque essa poderá ser a forma mais eficaz de defender os interesses criados ao longo dos anos e o imobilismo que lhes anda associado. Não será também por acaso que estão com essa candidatura todos quantos não gostam de ouvir falar em limite de mandatos dos cargos políticos, ou os que recusam a alteração da lei do financiamento dos partidos políticos, ou os que controlam importantes sindicatos de voto no partido.

Por isso, porque reconhecemos que existem profundas diferenças ideológicas entre essa candidatura mais ou menos "oficial" e as duas que se lhe opõem, consideramos que a grande questão que se coloca hoje à escolha dos socialistas é clara: é a escolha entre um Partido Socialista livre e aberto à sociedade e ao debate de ideias, um Partido com raízes nessa mesma sociedade, em diálogo real e permanente com ela e apostado na procura de novas políticas, um Partido que fomente a participação de todos os socialistas, capaz do bom governo e do respeito pela ética de responsabilidade ao serviço de Portugal; e o chamado pragmatismo político, dito de abertura ao centro (que a história demonstra ser o mesmo que cedência à direita) e que esconde mal a falta de ideias próprias para o governo da Nação e o desejo de utilizar o poder do partido e do Estado para a manutenção e defesa de interesses e comodismos, no esquecimento, muitas vezes, dos princípios e dos ideais socialistas da solidariedade, que são valores modernos, por serem valores de todos os tempos. Foi por isso que valorizámos o tema da ética republicana nas nossas anteriores moções: porque entendemos ser o momento de pôr fim ao carreirismo que caracteriza o discurso mediático e vazio daquilo a que se convencionou já chamar o centrão político.

Portugal vive uma encruzilhada no seu processo de desenvolvimento, em que são precisas ideias, experiência e vontade política para melhorar a vida dos Portugueses, em particular daqueles que vivem à margem das oportunidades criadas pelo progresso económico e social característico das sociedades avançadas. Objectivo que, para ser real, não pode permitir que mais de metade da nossa juventude fuja da escola antes de atingir doze anos de escolaridade, ou que dezenas de milhar de jovens licenciados estejam no desemprego. Por isso é hoje claro que há muito a mudar na nossa democracia, em que as promessas sucessivamente feitas aos portugueses - na educação, na saúde, na justiça e na economia - não são cumpridas, quando muitos dos agentes políticos convivem bem com enriquecimentos pessoais, com fugas aos impostos e com isenções fiscais permitidas aos poderosos, enquanto mandam apertar o cinto a quem apenas vive do seu trabalho. Por isso, continuamos a entender ser necessário impedir que os recursos necessários para investir no desenvolvimento e na criação de riqueza não sejam malbaratados no futebol, na indisciplina do Estado, na especulação imobiliária, na corrupção e nas cedências às corporações que vivem, por acção e por omissão, à mesa do Orçamento desse mesmo Estado.

O actual governo de direita no poder não tem a confiança dos Portugueses. É urgente que o Partido Socialista crie uma alternativa de poder credível e competente, capaz de juntar num grande projecto de desenvolvimento, de progresso e de modernidade todos os Portugueses de boa vontade. Mas isso não pode ser feito repetindo os erros do passado recente; importa, pois, que não deixemos desleixar a qualidade dos nossos militantes e dirigentes, nem consintamos que o partido se feche e estiole por ausência de debate interno, ou que o poder, quando no governo, mate a vida democrática partidária.

A moção "Pensar Portugal" indicou caminhos e soluções para Portugal que continuam tão válidos hoje como quando foram apresentados. Agora, como então, continuamos apenas a pretender que o Partido Socialista seja um partido de homens e de mulheres livres, aberto ao debate de ideias, capaz de escolher os melhores e os mais devotados à causa do progresso e do desenvolvimento sustentado do nosso País. Para isso, neste momento particularmente difícil para a democracia portuguesa, apelamos à participação livre dos militantes socialistas para mudar o PS e, dessa forma, servir Portugal.

Henrique Neto
Carlos André
Pereira da Silva

Publicado por Manuel Alegre às 04:26 PM | Comentários (6)

Da Radiografia de um Partido ao Significado de uma Candidatura

Manuel Alegre é candidato à liderança do Partido Socialista. Ao longo de uma vida envolvida na resistência à ditadura, na exigência de democraticidade no processo revolucionário que se seguiu ao 25 de Abril de 1974, no exercício das suas funções políticas e da sua persistente participação cívica, Manuel Alegre foi sempre um Homem frontal, a enfrentar, olhos nos olhos, a realidade. Com respeito mas com firmeza e uma muito pouco usual ousadia no espectro político português, Manuel Alegre foi sendo cada vez mais um Homem dotado de uma razão lógica implacável expressa sob o sentimento da paixão pelas causas sociais que sempre sobrepõe a qualquer objectivo social e político. Como para o Professor Sousa Franco, para Manuel Alegre, a economia deve ter como finalidade o bem-estar social das pessoas mantendo uma clara consciência do país iletrado e pobre que somos; por isso, assume natural, convicta e sustentadamente o socialismo como única forma de equilibradamente ascendermos ao desenvolvimento que há tanto perseguimos sem alcançar. Penso até que Manuel Alegre subscreveria a frase do poeta Nelson Rodrigues: "Qualquer indivíduo vale mais que a Via Láctea" e isso leva-me a dizer: o Poeta deveria ser o próximo Secretário Geral do Partido Socialista. Porquê? Porque o sonho, a utopia, a determinação, o sentido de justiça, a sensibilidade à injustiça e a expressão da indignação são as causas e as formas que os poetas têm de perceber e encarar o mundo. Porque, tal como já Platão o percebera na Grécia Antiga (construindo a sua tese política da governação da cidade por um Rei-Filósofo cuja gestão resultaria da reflexão de um Conselho de Sábios), o Poder deve ser exercido pelo Saber e a candidatura de Manuel Alegre parece a que mais se aproxima de tal proposta já que, ele próprio poeta e político, tem na sua candidatura os rostos mais credíveis da governação nacional das últimas décadas: Alberto Martins, Ana Benavente, Ana Gomes, Augusto Santos Silva, Helena Roseta, João Cravinho, Jorge Lacão, José Magalhães, Maria de Belém, Osvaldo de Castro, Paulo Pedroso, Vera Jardim, ...
Manuel Alegre é um Democrata. De Esquerda. Consensual pelo bom senso, a lucidez e a coragem com que vê, pensa e diz. Educado, respeitador, firme e recto para com os adversários. Um Homem de Pensamento e de Acção. Descentralizador, requer transparência na gestão política interna e privilegia a aproximação aos militantes. Manuel Alegre é um Político no mais nobre sentido do termo pois à política dedicou a vida de forma desinteressada e foi o seu sentido de serviço e de solidariedade socialista que lhe permitiram aceitar protagonizar esta candidatura... porque o seu sentido de responsabilidade social e política no contexto dos equilíbrios políticos europeus ditou, como imperativo ético, aceitar representar o que ele próprio entende ser fundamental neste momento: viabilizar a eleição de um novo Secretário Geral que dê ao Partido Socialista a possibilidade de clarificar o seu projecto ideológico contemporâneo.
Separar a direcção do Partido do exercício da governação socialista é um princípio ético referencial digno de um político desinteressado que tem como objectivo devolver o Partido aos militantes e a estes a liberdade de pensar, criticar e avaliar o exercício do poder dos seus pares. Neste sentido, Manuel Alegre devolve o PS ao Partido Socialista perspectivando o seu funcionamento de forma a reduzir as dependências interpessoais desenvolvidas em relação à estrutura orgânica partidária e que, além disso, prejudicam o desenvolvimento da reflexão, da crítica e do debate interno. O Partido Socialista mais do que uma máquina pronta a assumir o poder quando as circunstâncias aí o conduzem, deve ser um espaço de construção e consolidação ideológica, de constante aperfeiçoamento metodológico e de constante revisão da capacidade de adequação entre princípios e práticas... um espaço onde os autarcas possam encontrar a ajuda técnico-política necessária à rentabilização do seu exercício do poder. Este é o papel de um partido que visa indicar um governo com o objectivo de concretizar as medidas adequadas às necessidades das populações segundo prioridades que emergem do contacto regular e sistémico em clima de diálogo permanente entre militantes e estruturas dirigentes. Criar as condições para que isto aconteça parece o grande objectivo da candidatura de Manuel Alegre, o único que não faz campanha para ser eleito Primeiro-Ministro mas apenas - porque esse é o único objectivo das eleições para o próximo Congresso! - Secretário Geral dos socialistas portugueses. Sendo quem é, Manuel Alegre eleva a uma convergência - nunca vista desde o 25 de Abril! - a consensualidade da esquerda portuguesa porque ultrapassou a moda do "fim das ideologias", do "fim da História" e das "terceiras vias". Manuel Alegre devolveu ao socialismo, com coragem e convicção, a dignidade de se afirmar, credivelmente, como forma eficaz e eficiente de elevar a qualidade de vida de uma sociedade depauperada até ao âmago... pela iletracia, pela pobreza, pela falta de hábitos democráticos nas práticas comportamentais dos portugueses (obscurecidos por séculos de manipulação ideológica) que permitiram que ainda hoje seja praticado o exercício infantilóide e meramente oportunista da política por grande parte dos seus protagonistas, designadamente ao nível local.
Inesperadamente, no início do século XXI, surge um Homem que defende com seriedade e firmeza o socialismo como método equilibrado e justo para a redução das assimetrias socio-económicas regionais num país que persiste reconhecidamente afastado dos indicadores de desenvolvimento humano europeu... E é credível! E é autêntico! Porque o que diz é dito com clareza e frontalidade e, principalmente, porque o que diz: é verdade! É por isso que o voto directo no Partido Socialista é, felizmente, secreto... Porque, para além das aparências, cada um vota em consciência, em silêncio, a sós consigo mesmo, tendo presente o conhecimento que temos do que se vive e tem vivido no interior do Partido Socialista e da esquerda portuguesa... A esquerda que é maioritária em Portugal desde as recentes eleições europeias do passado mês de Junho!
À consciência e aos princípios de cada socialista corresponde um voto! Porque a liberdade do voto não tem nem pode ter um preço! Porque a liberdade de opção é individual e inalienável, o voto sendo exercício do direito de expressão é, também, o direito ao silêncio!

Ana Paula Fitas

Publicado por Manuel Alegre às 03:44 PM | Comentários (3)

agosto 12, 2004

responsabilidade do blog

Respondo a alguns comentários sobre quem está a editar este blog. Como poderão ver no site www.manuelalegre.org, a editoria do site e do blog são da responsablilidade de dois dos membros da equipa da candidatura de Manuel Alegre: José Magalhães e eu própria. De modo que se cometermos erros nesta tarefa, cá estaremos para dar a cara.
Helena Roseta

Publicado por Manuel Alegre às 11:54 PM | Comentários (23)

agosto 11, 2004

Uma Campanha Alegre

A Pressa de Encomendar

Nesta campanha para SGPS há coisas que me intrigam e uma delas é a adesão de algumas figuras a candidaturas que, tanto quanto se lhes conhece do passado político e ideológico, nada têm a ver consigo.
Por exemplo, Sérgio Sousa Pinto seria visto ou em apoio a João Soares, não pelo dito mas pela proximidade que dizem ter com o seu pai, Mário, ou em apoio a Manuel Alegre, com quem estará mais próximo a nível de ideias do que com Sócrates . António Campos, por exemplo, via-se melhor junto a Soares (pai) e este junto a Alegre, do que, respectivamente, junto a Sócrates e Soares (filho). E muitos mais casos se poderão referir.
O que se passou foi que, estando mais ou menos toda a gente consciente que Ferro era uma liderança de transição, os espíritos foram-se preparando para as alternativas conhecidas (Sócrates, Soares, Coelho, Seguro, Vitorino), sondando aberturas e granjeando compromissos preliminares e quando os não interessados disseram não estar na corrida, apressaram-se a marcar posição junto dos candidatos existentes, Soares e Sócrates.
Havia uma dicotomia e quem não pendesse para um, teria de apoiar o outro.
Sócrates garantia que pouco ou nada mexeria no Aparelho e todo o Aparelho lhe foi prestar vassalagem; reuniu também os soarófobos, que alguns há.
Soares garantia um regresso a um PS republicano, laico e socialista e os socratófobos, que também existem, trataram de lhe dar o conforto do seu apoio.
Todos esses ansiosos se precipitaram no pressuposto de, no menu, apenas haver estes dois pratos do dia. Quando surgiu a 3ª candidatura, a do Manuel Alegre, já haviam encomendado....
Donde, agora, se verem conhecidos macrobióticos a baterem-se com uma realíssima feijoada à transmontana.....

António Sérgio Pessoa

Publicado por Manuel Alegre às 01:08 PM | Comentários (3)

"Uma indispensável clarificação"

A ideia fundamental implícita no artigo "Uma indispensável clarificação" de José Socrates, publicado no DN de 4 da Agosto é a de que para ganhar as eleições legislativas de Outubro de 2006 o PS precisa, desde já (no próximo Congresso), de designar o seu "candidato a Primeiro Ministro".
Discordo desta ideia pelas razões seguintes:
1-A mobilização de todos os seus militantes e a conciliação das suas correntes internas com vista às eleições autárquicas de 2005 é a grande tarefa em que se tem de empenhar o Secretário Geral do PS na sequência deste próximo Congresso . Paralelamente, o Partido deve-se ir preparando para as eleições legislativas de 2006. A designação prematura de um "candidato a Primeiro Ministro" não facilita, nem a conciliação interna, nem a preparação para as eleições de 2006.
2-Entre os Congressos, o orgão competente para definir as grandes linhas de orientação política do PS é a Comissão Nacional e não Secretário Geral. A Comissão Nacional do PS neste próximo Congresso não será, certamente, eleita por lista única como o foi em Congressos anteriores. Nela, José Socrates terá oportunidade de expor os seus pontos de vista e oportunidade, também, para ouvir os de outros. O PS é, aliás, soberano para, se o entender, convocar um XV Congresso no início de 2006 para, depois das eleições autárquicas, debater e aprovar a política nacional a apresentar ao país nas eleições legislativas de Outubro de 2006.
3-Ninguém sabe qual virá a ser a situação do país daqui a um ano. O provavel é que os problemas de fundo: má administração, economia, educação, saude, degradação ambiental, perda do património, endividamento das famílias e do país, desemprego, etc., estejam bastante agravados. Para ganhar as eleições daqui a dois anos o PS tem de apresentar ao país as suas propostas para estes problemas e tem de mostrar estar razoavelmente preparado para assumir a responsabilidade de o gerir na situação dificil em que se vai encontrar. Esta preparação exige alguma capacidade crítica de actuações passadas do próprio PS.
4- Face a um Santana Lopes, populista mas habil, e com a vantagem de estar no poder, um "candidato a Primeiro Ministro" do PS prematuramente designado que pretenda viver de efeitos mediáticos sem estar apoiado num partido verdadeiramente preparado, só poderá arrastar durante dois anos uma oposição não credivel e será, provavelmente, um candidato derrotado.
A proposta apresentada por José Socrates, no seu texto, de "um plano técnológico" é, manifestamente, por agora, uma proposta ainda muito vaga, que terá de ser precisada com mais cuidado. Sendo José Socrates engenheiro, gostaria de o ver dar, desde já, mais atenção ao problema do desaparecimento da indústria metalomecânica portuguesa. O anterior Governo de durão Barroso tinha uma Secretaria de Estado do Comércio, da Indústria e dos Serviços, o que revela a importância que atribuia à Indústria, que contínuará, certamente, a ser um dos factores fundamentais do progresso e da criação de riqueza das nações. Espero que um futuro governo do PS venha a ter, no mínimo, uma Secretaria de Estado da Indústria. Aproveitando sugestões vindas de vários lados, fico também à espera de que venha a ter uma Secretaria de Estado da Inovação, especializada em analisar e canalizar para diferentes destinos, sugestões e ideias que lhe sejam levadas pelos cidadãos desejosos de contribuir para o progresso do seu país.
(9 de Agosto de 2004)
António Brotas

Publicado por Manuel Alegre às 12:59 PM | Comentários (1)

SOCIALITES

José Sócrates tem razão: só por má fé se pode dizer que ele é igual a Santana!


Senão vejamos, começando pelo mais recente: seria Santana capaz de assinar um artigo como o publicado pelo Público (2/8/04) sob o título "Um plano tecnológico para uma alternativa"? A resposta só pode ser negativa, não porque Santana não seja homem para ler artigos que outros lhe escrevem - ao que dizem alguns articulistas, tal terá sido o caso do discurso de posse -, mas por duas outras ordens de razões: (i) Santana, com todos os seus defeitos, é um político espontâneo e descontraído enquanto Sócrates, com todas as suas virtudes, é um produto programado e tenso; (ii) Santana, com toda a sua demagogia, tem alguma noção da sua impreparação e limites enquanto Sócrates, com toda a sua ambição, não regateia o uso do inacreditável para lhe servir os fins.

A não ser que o Mestrado em Gestão de Empresas que Sócrates está a frequentar o tenha transfigurado, quer em hábitos de trabalho quer em acesso a conhecimentos de que estava longe e que chegava a desprezar por impróprios de políticos puros e duros na sua predestinação. Neste quadro, gostei de ver o engenheiro - sim, agora haverá dois... - a procurar revelar uma sapiência inesperada, a tentar evidenciar uma capacidade de proposta de que as "más línguas" duvidavam e a esforçar-se por apresentar uma alternativa de que a sua "esquerda moderna e moderada" tanto necessitava. E tudo isto com o detalhe adicional, e não irrelevante, de uma página inteira escrita, desta vez, sem citações!

Não fora o facto de o documento não conter nada que o possa qualificar como um plano, integrando objectivos, meios, propostas concretas de actuação e formas de implementação. Não fora ter existido José Mariano Gago, um Ministro da Ciência e da Tecnologia que durante seis anos desenvolveu na área um trabalho notável. Não fora o recurso a um conjunto alargado e amplamente consensual de lugares comuns sobre a matéria que se propõe tratar e atacar. Não fora, ainda, a despropositada manifestação de uma elaboração para que não tem competência bastante, a qual nos levaria a perguntar-lhe, por exemplo: (i) o que entende por produto potencial e como calculou o da nossa economia quando alerta para que "as melhores estimativas apontam para uma taxa média de crescimento do nosso produto potencial da ordem dos dois por cento ao ano, no longo prazo"; (ii) o que entende por produtividade total dos factores quando ensina que "o motor de crescimento de uma economia é menos a quantidade de factores usados na produção, do que a produtividade total dos factores, que decorre da infra-estrutura social de cada país"; (iii) em que trabalhos se baseia para considerar que "está demonstrado que a causalidade opera do nível de qualificações para o progresso tecnológico e não em sentido inverso"; (iv) o que inclui no sector dos serviços relativamente ao qual sustenta que "importa promover, com muita determinação, a criação de valor acrescentado, fundado na diferenciação, na inovação e na qualidade".

Agora que tanto se fala, mais ou menos acertadamente, de "populismo", o texto em apreço ilustra-o em todo o seu esplendor. Um tema politicamente correcto, muitas palavras bonitas, alguma terminologia técnica, de tudo um pouco lá está presente num empacotamento que também integra, avulsamente, quase todas as "dimensões" que se julga deverem caber nos desígnios que os eleitores atribuem/querem ouvir à dita "esquerda moderna": crescimento, convergência, progresso, emprego, oportunidades, distribuição do rendimento, igualdade, produtividade, competitividade, ciência, tecnologias de informação, excelência, inovação, internacionalização, qualificação, formação, ambiente, mudança, mobilização, and so on...

Não sei que instintos de ferocidade poderão ser despertados por esta prosa no único ministro entertainer da nossa história. Como não sei que renovação se fará com base numa liderança sem rumo e sem mundo, em apelos a uma abertura à sociedade que um aparelho anquilosado e cheio de vícios e artimanhas não consentirá ou meramente instrumentalizará, na repetição de métodos insuportavelmente gastos e no desfile das caras já grotescas de inúmeros caciques partidários e "cromos" locais, em compromissos inexplicáveis e contra-natura assumidos com amigos de ocasião ou companheiros de ressabiamento. Como não sei, também, se algum dia a esperança vencerá mesmo o medo, i.e., se alguma vez prevalecerão os valores sobre o modernismo, a estratégia sobre o exercício do poder, o construtivismo sobre a estética, a experiência sobre os impulsos, a comunicação sobre a propaganda. Sei sim, e também recorrendo a palavras alheias, que pretendo questionar "se isto faz sentido ou que é que andamos aqui a fazer" - como resumiu Manuel Alegre - e assim modestamente ajudar a desmontar os factores de decadência que varrem a sociedade portuguesa; tanto quanto me revejo nesse personagem de Oscar Wilde que entoava: "A cultura depende da cozinha. Para mim, a única imortalidade que desejo é a invenção de um novo molho".


Fernando FREIRE DE SOUSA
Professor Universitário; Ex-Secretário de Estado do XIII Governo Constitucional


Publicado por Manuel Alegre às 12:52 PM | Comentários (2)

agosto 10, 2004

Sócrates contra Sócrates ou o pequeno enigma

por Josias Gil, 07/08/2004


Sócrates, o grego, que apesar de ter 2500 anos e ser filósofo, ainda é muito mais notável do que o nosso homónimo engenheiro, seguia o lema "Conhece-te a ti mesmo". Sócrates deu a própria vida para que a verdade fosse por todos alcançada. Colocava perguntas incómodas, cujas possíveis respostas conduziam os seus interlocutores a um de dois possíveis resultados: ou à descoberta da verdade, ou então ao desmascaramento do engano com que tantas vezes se encobre a mesma verdade. Foi essa ousadia junto dos poderosos que o deitou a perder...
Manuel Alegre, que, no Portugal do século XXI, é quase tão famoso como Sócrates na Grécia do século V antes de Cristo - apesar de não ser filósofo - colocou uma questão socrática ao nosso engenheiro Sócrates: José Sócrates, que está a tentar confundir estas eleições para secretário geral do Partido Socialista, com umas primárias para primeiro ministro, se ganhar esta eleição agora, e depois as legislativas com maioria relativa, como irá garantir a estabilidade governativa. Que acordos irá fazer? Com a direita? Com a esquerda? Com mais um queijo Limiano, ou uma qualquer alheira de Mirandela?..
O nosso Sócrates, pelo seu director de campanha, deu uma resposta contra o próprio Sócrates. Procurou esconder a verdade, criando um pequeno enigma: o que irá fazer nessa possibilidade?!.... Que disse então o nosso engenheiro Sócrates?!...
Disse que responder à pergunta era um sinal de fraqueza, pois era admitir a possibilidade de não vencer as futuras legislativas com maioria absoluta. Isto cá para nós, realmente, não passa pela cabeça de nenhum português que se preze, que o PS ganhe as próximas legislativas apenas com maioria relativa!... É algo de absolutamente impensável!!! E muito menos por um candidato a primeiro ministro!...
Com esta resposta Sócrates revelou-se:
Disse-nos que usa uma política de tosca dissimulação. O esforço para esconder o que iria fazer é um notável contributo para o sabermos: Vê-se, à evidência, pela sua resposta, que Sócrates repetiria o erro de Guterres: negociando, ao "bom" estilo utilitarista, com aqueles que, no imediato, lhe oferecessem melhor e mais fácil resultado.
Disse-nos que, para si, o Partido Socialista e a política é um jogo em que se molda a táctica às circunstâncias, procurando surpreender o adversário, e consequentemente o público. Talvez se comece a perceber porque não quer debates abertos ao exterior... Mas, mesmo neste plano, Sócrates é mau jogador: denuncia-se demasiado...
Disse que, para si, a diferença entre a esquerda e a direita se resume a um mero posicionamento relativo no tabuleiro do xadrez da política. O seu valor é variável em função do contributo que cada uma das forças políticas lhe possa dar para as pequenas vitórias de circunstância.
Disse, enfim, que seria o senhor que se segue neste enfadonho desfile dos servidores do neoliberalismo e dos seus beneficiários líquidos, que têm passado e continuam a passar, com cada vez mais despudor, pelos governos de Portugal.
Com aquela incómoda pergunta, Alegre trouxe-nos o terrível moscardo socrático, que espicaça as consciências e denuncia as falsificações. Virou Sócrates contra Sócrates e os socialistas para o problema da sua própria identidade, conhecendo-se a si mesmos.

Publicado por Manuel Alegre às 05:44 PM | Comentários (12)

agosto 06, 2004

RAZÕES DO APOIO A MANUEL ALEGRE

NA edição de 6 de Agosto do jornal Público, Maria de Belém, Santos Silva e Manuel Maria CArrilho depõem sintetizando as razões do seu apoio a Manuel Alegre:

Maria de Belém

Para Maria de Belém o que distingue Manuel Alegre é a vontade de "esclarecer" e de "proporcionar o tipo de sociedade e de Estado que se defende para o país". A deputada socialista explica que o que está em causa é uma "clarificação ideológica do partido", que considera fundamental. Maria de Belém entende que Manuel Alegre é a pessoa indicada para promover "um debate de ideias que se pretende esclarecedor". Maria de Belém foi ministra da Saúde dos governos de António Guterres.

Augusto Santos Silva

"Alegre enriquece debate político"

Augusto Santos Silva apoia Manuel Alegre porque considera que a sua candidatura "enriquece o debate político no PS" e porque permite que "todas as correntes de opinião possam estar representadas" nesse debate, o que, segundo explica, não acontecia apenas com as candidaturas de João Soares e José Sócrates. Augusto Santos Silva declara que partilha com Manuel Alegre o "entendimento do que é uma esquerda democrática" e que, apesar de não concordar com todas as ideias de Manuel Alegre, ele é, dos três candidatos, "o que melhor garante o debate de ideias". Augusto Santos Silva foi ministro da Educação dos governos de António Guterres e aproximou-se do PS na altura dos Estados Gerais.

Manuel Maria Carrilho

"Alegre assume reformismo de esquerda"

Manuel Maria Carrilho declarou ao PÚBLICO que apoia a candidatura de Manuel Alegre porque pensa que ele é o melhor candidato para devolver o PS "à militância, às ideias e a vontade dos seus 77606 membros, evitando que a escolha do secretário-geral do PS fique, como tem acontecido, nas mãos de cerca de 10% de votantes", e porque considera que Manuel Alegre é quem melhor assume "o reformismo de esquerda de que o PS precisa para fazer um combate eficaz à direita em nome da igualdade, da qualificação e do desenvolvimento de Portugal".

Publicado por Manuel Alegre às 05:56 PM | Comentários (22)

O DEBATE INTERNO VISTO PELO PÚBLICO

Na edição de Sexta-feira, 06 de Agosto de 2004, o Público analisa o debate em curso no PS, num artigo com o título«Falar Ou Não para o Centro,eis a questão Do PS», da autoria de MARIA JOSÉ OLIVEIRA, Nuno Sá Lourenço e Ana Sá Lopes.
Sem comentários, eis o texto integral, para que possa ser objecto de debate neste blog:

Na linguagem, retórica e símbolos, um mundo separa José Sócrates de Manuel Alegre, na formulação de políticas concretas ainda falta ver. O debate entre um PS mais à esquerda ou mais à direita vai estar no centro do próximo congresso do partido, que decorre em Outubro.

Mas são os símbolos ou as políticas concretas que separam os principais candidatos? Por enquanto, o debate prossegue com maior incidência no domínio da simbologia.

Em conversa com o PÚBLICO, Manuel Alegre nomeia as diferenças ideológicas em relação a Sócrates. "Ele diz que não há problemas ideológicos no Partido Socialista. Mas há",salienta, exemplificando com a primeira recusa de Sócrates em debater na comunicação social.

"O facto de não querer discutir ideologia é já uma atitude ideológica mais à direita."

Manuel Alegre considera que há sustentação ideológica no discurso de Sócrates. Mas foca o centro, diz. "Hoje o PS é o partido verdadeiramente ao centro e a ideia de que os socialistas só podem vencer ao centro é uma mistificação", alerta, argumentando: "O que está aqui em causa não é uma luta entre radicais, protagonizados por mim, e moderados, protagonizados pelo Sócrates." A questão fulcral, frisa Alegre, reside "entre quem defende as estratégias baseadas em princípios que podem implicar rupturas e quem está sempre a pactuar com o situacionismo, com o pragmatismo e com a gestão sem ideologia".

Lembrando que já assistiu a "muitos ciclos políticos", Alegre aponta que as "dinâmicas de vitória" arrastam inevitavelmente o "centro sociológico", que, em termos políticos, "não tem uma expressão própria". "Se há uma dinâmica à direita, ela arrasta o centro, se há uma dinâmica à esquerda, também arrasta o centro. E o que é o centro? É aquele eleitorado flutuante que umas vezes vota à esquerda, outras vezes à direita."

José Sócrates, pelo contrário, insiste em que o PS tem que falar para o centro e não apenas e só para o seu eleitorado tradicional. "O PS tem que falar para todos os portugueses",afirma, frisando que só através desta estratégia é possível ganhar as eleições legislativas.

Rejeita a ideia de que é a "direita" do PS e, para o comprovar, apresenta o currículo da obra feita nos governos de António Guterres, onde a "marca" da direita não lhe foi nunca apontada, tanto na política sobre a droga como nas medidas tomadas em matéria de defesa do consumidor. O facto de ter a seu lado Sérgio Sousa Pinto, outrora o mais fracturante deputado que tanto incomodou António Guterres, o fundador do PS António Reis e até o antigo sampaísta António Costa contribuem para lhe "amenizar" a conotação de "ala direita" que lhe
foi colocada neste pré-congresso.

Mas, ao contrário de Alegre, é na moderação que efectivamente José Sócrates aposta, não pondo em causa - antes valorizando - a experiência guterrista e os vários governos socialistas europeus no poder nos últimos anos. Manuel Alegre repete, aqui e ali, que "o
socialismo tem de mudar". De que forma? "Não se autodiluindo e não se deixando colonizar pela hegemonia ideológica do neoliberalismo", responde prontamente, não deixando, porém, de dar a entender que estas são as soluções defendidas por Sócrates. Para Alegre, as mudanças passam pelo incremento de novas formas de representação e organização, pela definição de grandes orientações estratégicas e por uma renovação do papel do Estado - o "Estado estratega", como designa -, responsável pela supressão das falhas do mercado e promotor de serviços de interesse geral.

O objectivo de atribuir ao Estado as funções de promotor de justiça social obriga, necessariamente, à "realização de uma reforma fiscal". "Mais profunda do que aquela que foi feita até hoje", ressalva Alegre. Para tal, destaca, o Estado "tem de manter nas suas mãos
alguns sectores", advertindo que "não se trata de o Estado se substituir à economia de mercado nem de o transformar em produtor". A ideia, explica, é, "por um lado, o Estado ser o promotor das políticas sociais, que são inseparáveis dos direitos políticos, e, por outro, suprir as falhas do mercado e estimular determinadas áreas, como a educação, a cultura ou a qualificação das pessoas".

No entanto, também José Sócrates põe ênfase no papel do Estado e nos "bens públicos que estruturam a nossa sociedade". Para Sócrates, uma das funções da "esquerda moderna" é "resistir a este ataque da direita à esfera pública": "Nem tudo deve ser entregue ao mercado
e à esfera individual na nossa sociedade". Defende "melhores serviços públicos", beneficiários de "boas doutrinas de gestão".

João Soares avança para a corrida à liderança depois de ter perdido, com a derrota para a autarquia de Lisboa, o capital político que detinha. A sua presença no embate serve para manter a sua quota de influência no interior do partido. Esta não é a primeira vez que João

Soares se candidata a secretário-geral. Foi opositor de Vítor Constâncio, tendo desde então mantido um grupo de fiéis que reaparecia de tempos a tempos em almoços no restaurante
Caleidoscópio. O seu relativo peso entre as tendências do partido permitiu, por exemplo, a entrada de alguns dos seus (Rui Cunha e Acácio Barreiros) nos governos de António Guterres.

Este candidato mostrou pouca disponibilidade para fazer o exercício ideológico. "Não tenho balanças para fazer esse tipo de pesagens", justificou.

O esforço do candidato tem sido, em contrapartida, o de marcar a diferença por outros critérios. O principal é a ideia de que João Soares é, dos três candidatos, o mais preparado para ser primeiro-ministro. "O que me distingue daqueles que se candidatam contra mim -
porque surgiram depois da minha candidatura - é que tenho uma experiência muito mais alargada." O ex-presidente da Câmara de Lisboa recupera os seus 12 anos de autarca, "seis como presidente", numa actividade executiva "que tocou em todas as áreas que têm que ver com
a gestão de um país". O candidato insistiu também na ideia que gerir a câmara da capital exigiu um esforço "bem superior à maioria dos ministérios". "Estão aqui três candidatos que se apresentam. Vamos lá a ver o que é que cada um fez quando teve poder. O Manuel Alegre
ficou na Assembleia da República. O José Sócrates teve experiência de poder como secretário de Estado, depois lá conseguiu afastar a Elisa Ferreira e chegou a ministro, mas a sua experiência é muito limitada."

Sobre o guterrismo, Soares critica concretamente Correia de Campos, ministro da Saúde de António Guterres: "Abriu a porta para que estes tipos entregassem 30 hospitais de uma só vez aos privados." A sua visão sobre este problema termina com a possibilidade de "inverter a
marcha". Não o choca o Estado recuperar peso em alguns sectores económicos, até porque, recorda, isso já aconteceu na Europa. Dá o exemplo do Reino Unido nos caminhos-de-ferro. "Se for preciso, não vejo nisso nenhum drama. Não tenho nenhum preconceito à partida. A
renacionalização é um instrumento interessante."

Publicado por Manuel Alegre às 05:47 PM | Comentários (1)

Sócrates: o testemunho de um ex-colaborador

Na edição de 4 de Agosto do Diário Económico, Pedro Cunha Serra, ex-Presidente do IEP e do INAG e que se assume como «alguém que com ele ( José Sócrates ) trabalhou de perto durante os anos da sua passagem pelo Ministério do Ambiente», escreve o seguinte:

«Os dois anos em que foi Ministro do Ambiente e em que teve na sua mão a distribuição dos fundos comunitários utilizou-os ele a tecer a trama de influências regionais e nacionais,partidárias e não só, que o fazem imbatível em qualquer contenda no seio do PS (...)»


Sem comentários...

Publicado por Manuel Alegre às 05:17 PM | Comentários (11)

agosto 05, 2004

ALIANÇAS À ESQUERDA OU À DIREITA? Manuel Alegre na entrega da sua candidatura

Manuel Alegre desafiou hoje José Sócrates a esclarecer se admite alianças à esquerda no caso de o PS vencer as próximas legislativas sem maioria absoluta.
Narra a LUSA:

"O PS deve lutar pela maioria absoluta, mas podemos não a ter. E o que é que [José Sócrates] vai fazer? Negociar com o CDS? Refazer o bloco central [PS/PSD]? Nós não temos medo de negociar com a esquerda. Não temos medo da palavra esquerda", afirmou Manuel Alegre.

O candidato à liderança socialista discursava numa cerimónia no jardim da sede nacional do PS, em Lisboa, depois da entrega, ao presidente da comissão organizadora do congresso, Vieira da Silva, das assinaturas de apoio à sua candidatura - mais de 200, de acordo com o coordenador da campanha, Osvaldo de Castro.

Ressalvando que o congresso do PS, que se realiza no início de Outubro, não são "legislativas primárias", Manuel Alegre insistiu que José Sócrates, como todos os candidatos, tem a obrigação de dizer que estratégia propõe para o país.

Acompanhado por Manuel Maria Carrilho e Maria de Belém Roseira, entre outros socialistas apoiantes da sua candidatura, Manuel Alegre defendeu que "a estabilidade também se pode construir à esquerda" e insistiu que Sócrates esclareça qual a sua política para "garantir a estabilidade" num cenário em que venha a ser eleito secretário-geral do PS e primeiro-ministro.

Alegre recusou que a sua candidatura pretenda deter "o monopólio exclusivo da esquerda", mas frisou que "isso mede-se pelas atitudes e comportamentos" e que "não recebe lições de bom comportamento por parte de ninguém".

O actual vice-presidente da Assembleia da República aproveitou ainda para divulgar os nomes de dois novos apoiantes da sua candidatura, Torres Campos e Elisa Ferreira, deputada independente na bancada socialista, e assinalar a presença na cerimónia, como apoiante, da dirigente socialista Ana Gomes.

Manuel Alegre anunciou a realização de um debate, no âmbito da sua campanha, sobre o Desenvolvimento de Portugal no contexto da União Europeia, iniciativa "virada para a sociedade" e que considerou "um protótipo dos novos Estados Gerais".

A estrutura organizativa da campanha foi também apresentada: o deputado do PS João Cravinho é o mandatário nacional da campanha, Lígia Amâncio é mandatária para as mulheres e Juliana Martins e Miguel Cabrita para a Juventude. Osvaldo de Castro e Ana Catarina Mendes são os directores e coordenadores nacionais da candidatura de Manuel Alegre.

Publicado por Manuel Alegre às 10:06 PM | Comentários (4)

agosto 04, 2004

"Alegre e Sócrates "- post de Vicente jorge Silva no Causa-Nossa

Com a devida vénia (obrigado Causa-Nossa!), segue-se citação de um post de Vicente JS sobre a campanha eleitoral em curso:
«Entre Sócrates e Alegre prefiro, certamente, Alegre. Alegre é o que é, mostra o que é e o que sempre foi, não disfarça. Sócrates é um camaleão do oportunismo político, que pesca à direita os apoios do aparelho do PS e à esquerda a caução ideológica junto de figuras tão improváveis como Sérgio Sousa Pinto e António Reis.

Prefiro mil vezes o romantismo «démodé» mas genuíno de Alegre ao novo-riquismo «modernista» e empertigado de Sócrates. Mesmo quando nos irrita com os seus ares de aristocrata «blasé» e eterno diletante da política, Alegre tem uma espessura como personagem que o distingue da inconsistência robotizada de Sócrates (a sua recente entrevista à revista do «Expresso» é, a esse respeito, exemplar).

Evidentemente, Sócrates programou-se (ou foi programado) para ganhar, enquanto Alegre parece assumir (mesmo quando pretende o inverso) a pose romântica do lutador destinado a perder, mas com honra, uma batalha simbólica. Além disso, Alegre representa, «malgré-lui», um PS arcaico e saudosista que, apesar das proclamações em contrário, tem notória dificuldade em ultrapassar o mero terreno ideológico ou a condição mítica de representante das classes oprimidas ou marginalizadas pelo neo-liberalismo.

A síntese entre rigor económico e defesa dos direitos sociais implica uma reavaliação do papel do Estado e, em particular, do Estado-Providência, de modo a garantir a sustentabilidade das áreas fundamentais do serviço público. E, para isso, não basta apenas uma atitude defensiva de protesto ou inconformidade face aos abusos neo-liberais. É indispensável uma atitude ofensiva que mobilize as energias dos sectores mais dinâmicos da sociedade e não só a revolta ou o ressentimento dos que se sentem excluídos. Se a esquerda democrática não conseguir responder a este desafio, só lhe resta ser absorvida pela lógica neo-liberal (como aconteceu com Blair) ou fixar-se num estéril saudosismo doutrinário divorciado do real.

Vicente Jorge Silva

Nota de leitura: Por que é que Alegre há-de ser amarrado ao pelourinho («malgré-lui») de "um PS arcaico e saudosista"? A vasta base de apoio da candidatura dificilmente pode ser reduzida ao saudosismo e ao arcaismo. Por outro lado, há uma batalha a travar no terreno ideológico e as "classes oprimidas ou marginalizadas pelo neo-liberalismo" merecem ser capazmente representadas por um PS fiel às suas raízes.Ou não?

Publicado por Manuel Alegre às 11:09 PM | Comentários (10)

MEDEIROS FERREIRA SOBRE OS BLOGS

Agora que a candidatura de Manuel Alegre encetou um processo de debate em que, entre outros meios, se recorre à publicação de artigos e notícias através de blog, vem a propósito recordar uma reflexão que Medeiros Ferreira dedicou ao tema da escrita-em-blog, numa época em que dificilmente nos imaginaríamos envolvidos neste combate.

Autor: José Medeiros Ferreira
Local: Imprensa, Diário de Notícias
Data: 2 de Setembro de 2003


Blogue-Notas

A bloguemania está a difundir-se rapidamente. É, por enquanto, um exercício particular de quem gosta de ter opiniões abundantes e imediatas e revela uma acentuada necessidade de comunicar. A maior parte dos blogues que conheço aparenta-se ao género diarístico da antiga literatura. Um parente dissemelhante e de outra geração. Em todo o caso é um descendente_ À primeira vista é um descendente, em língua portuguesa, de um Miguel Torga menos esculpido em granito lexical, de um Vergílio Ferreira mais mundano na sua conta-corrente, de um Fernando Aires angustiado de metafísica, de um Cristóvão de Aguiar bloguista avant la lettre com a sua relação de bordo existencial. Até me lembrei de Teixeira de Pascoaes e de Raul Brandão, mas os blogues dos nossos cibernautas pouco tratam de sentimentos. Estão mais virados para a descoberta da luta política por conta própria. Porque será? É claro que os blogues não são mais nem menos do que os sites precocemente envelhecidos pela necessidade de criar modas internéticas. Ainda há 50 anos se viravam os fatos do avesso, dando-lhes um retomado colorido, caso o tecido valesse a pena. O site é mais institucional, o blogue é mais individual _ ambos unidos por uma orgia de endereços electrónicos_ Deste modo, e antes que seja tarde, aproveito esta minha curiosidade de férias, para apresentar um modelo de blogue-notas:

Quinta-feira, dia 28: João Cravinho propõe António Guterres como cabeça-de-lista para as europeias. Não é a primeira vez que o faz, mas em Agosto o caso foi mais falado do que nos blogues que reservam uma entrada para Comentários(o). Acho uma boa ideia, embora não faltem excelentes candidatos a cabeças-de- lista para o Parlamento Europeu em quase todos os partidos do sistema, e até fora dele. Depois dos jogadores de futebol deve ser mesmo a melhor especialidade portuguesa. Por isso não me preocupo muito com o assunto. Alguém há-de aparecer. Prevejo um bom resultado do PS e a eleição de pelo menos um deputado do Bloco de Esquerda. Mesmo que o PSD perca essas eleições, com certeza que Durão Barroso não se demitirá. Vou guardar este blogue até Junho do próximo ano para o citar. Posted by José.

Sexta-feira, dia 29: Chuva. Como disse Teixeira de Pascoaes, o Outono em Portugal começa em Agosto. Esta chuva acaba com os incêndios, dirão os patriotas do clima.

Leio uns documentos da Casa Pia n'O Independente. Mas se todos os portugueses fossem avaliados, na indevida altura, por pedo-psiquiatras, quem garantiria o estado da nação no futuro?! E quantos blogues não seriam precisos para revelar as pulsões, as tendências, e até os actos de tanta gente feliz com lágrimas? Freud elaborou uma teoria geral. Em Portugal, pelo menos desde Pina Manique, elaboram-se fichas pessoais. Posted by Heterónimo Ferreira.

Sábado, dia 30: José Sócrates, no Expresso, afirma que António Guterres é o melhor candidato às eleições presidenciais. Pasmo com este afã de candidatar o presidente da Internacional Socialista a todos os cargos imagináveis. Tanto mais que agora ele vai em missão social da ONU junto de Lula da Silva, conforme também me ensina o mesmo semanário. Prevejo que António Guterres aproveitará a primeira ocasião para repetir estar retirado da política doméstica activa. Ainda é muito cedo para «o natural», como notou o E. P. C. A propósito será que o E. P. C. tem um blogue? Posted by Medeiros.

É isso. Um dia que deixe de ter a coluna no DN vou criar um blogue-notas!

Nota do manuelalegre.weblog.com.pt:
Não foi preciso deixar de escrever no Dn para blogar.As duas coisas são muito compatíveis e podem convergir na defesa de boas causas...

Publicado por Manuel Alegre às 09:17 PM

Sondagem do Correio da Manhã

Em sondagem publicada pelo Correio da Manhã no dia 4 de Agosto, Manuel Alegre surge em 2º lugar como candidato à liderança do PS, com 19,8% dos votos, contra 57,7% de José Sócrates e 16% de João Soares. Esta sondagem foi realizada entre 23 e 26 de Julho, antes da apresentação pública da candidatura de Manuel Alegre, que teve lugar em 29 de Julho.

Publicado por Manuel Alegre às 06:17 PM | Comentários (2)

agosto 03, 2004

É «surpreendente» José Sócrates não querer debater

A TSF noticiou ( 22:07 / 02 de Agosto 04 )a réplica de Manuel Alegre à postura assumida por JS quanto à realização de debates entre candidatos no presente quadro eleitoral:
Manuel Alegre considerou «surpreendente» o facto de José Sócrates não querer debater consigo e com João Soares. O candidato à liderança do PS frisou que tem total confiança na Comissão Organizadora do Congresso.
«É realmente surpreendente, ou talvez não. O engenheiro José Sócrates andou dois anos a debater com o Dr. Santana Lopes e por isso mesmo se calhar um é primeiro-ministro e o outro é candidato a secretário-geral», afirmou Manuel Alegre.

Manuel Alegre salientou que não entende porque é que José Sócrates não pretende debater consigo e com o próprio João Soares.

«Não percebo que não queira debater com dois dos seus camaradas que são candidatos a secretário-geral, porque o PS é um partido aberto. Os portugueses têm o legítimo direito de saber o que pensam os candidatos à liderança do partido sobre problemas do país», explicou.

Manuel Alegre mostrou-se «revoltado» pelo facto de José Sócrates ter debatido com Santana Lopes «durante dois anos e agora não querer debater» nem consigo, nem com o Dr. João Soares. «Acho isso uma coisa extraordinária», sustentou.

No entanto, Manuel Alegre deixou bem claro que confia «inteiramente na Comissão Organizadora do Congresso» e explicou que o que importa é saber «em que mãos está o partido socialista», ou seja, se «são os militantes que vão decidir, ou já está tudo decidido pelas estruturas dirigentes».

Publicado por Manuel Alegre às 05:36 PM | Comentários (13)

agosto 02, 2004

Carta Aberta ao camarada Manuel Alegre

Uma política de ideais e não de conveniências!

Há duas imagens dos políticos:
a do político propriamente dito, do ideólogo, do tribuno, do disputador do poder; outra a do estadista, do gestor da Polis, do homem capaz de bem conduzir o País na senda do Progresso e do seu ideário político.

Os lideres dos partidos deverão ser, principalmente, do 1º tipo
O dos governos, principalmente do segundo.

Os primeiros, idealistas, aliando a força da razão à chama da convicção; os segundos pragmáticos, juntando o conhecimento técnico das questões à capacidade de realização.

Quando uns se confundem com outros, normalmente o Partido esgota-se no poder e isto é assim para os governos e autarquias, como o é para o partido nas suas estruturas de vário nível .

Estas funções têm permitido nestas alturas o posicionamento “do poder pelo poder” no aparelho partidário. Tem sido assim e os resultados não têm sido bons.

Nesta fase, a tua candidatura deverá ser, essencialmente, do primeiro tipo, sem contudo descurar a hipótese de, quando e se tiver de assumir o poder, se poder garantir uma chefia “de Estado” séria, dedicada, honesta, democrática e competente.

Esta candidatura tem apoiantes de grande nível e prestígio pessoal, quer no Partido, quer na sociedade civil. Não é, assim, uma luta em que estejas só, pelo contrário, tens uma equipa poderosa, cujos méritos deverão ser, em campanha, amplamente enfatizados. É de partir, assim, confiantes num bom resultado e pugnar para vencer, sem nos deixarmos influenciar pelos media.

Sem descurar a informação pública, deverá ser para os militantes que a campanha se deverá virar, com sessões em todas as federações distritais.

Apostamos na confirmação da identidade de esquerda do Partido Socialista e na sua renovação.

Sem mudarmos o partido não conseguiremos mudar as politicas e muito menos a responsabilização e a credibilidade nacionais.

Toda a gente está farta de conversas e discursos palavrosos e opacos de significado. É preciso ser claro e falar forte e conciso, sobre a imprescindível reforma do partido e dos esquemas de participação interna; sobre a necessária renovação dos quadros e das caras; sobre a refocalização num ideário, sem duvidas, tolerante, igualitário, progressivo, criativo, que valorize o espaço social do Estado como um dever correspondente a um direito dos cidadãos.

O país precisa de um PS nítido, à Esquerda, com o esclarecimento do que é que “Esquerda” significa nos dias de hoje e porquê. Devemos ter ideias políticas sobre o País, os seus problemas concretos e as possíveis formas de os resolver. Problemas da iletracia, da falta de formação cívica e profissional; da baixa produtividade, da desorganização crónica, da diminuição da solidariedade na sociedade, do abandono dos velhos, da licença na formação da juventude.

O PS deve também credibilizar-se na exigência e na prática dum exercício honrado dos cargos públicos. Com verdade, numa pratica evidente de transparência de objectivos e de processos.

Nas acções internas de reforma do Partido e na política nacional, nas ideias e nas condutas, o PS deve voltar a agir por ideais e não por conveniências. A favorecer o mérito e a dedicação e não as clientelas e a subserviência. A apreciar a dialéctica e o debate de ideias e não o seguidismo acrítico e carreirista. A praticar a abertura e a tolerância e não o fechamento defensivo e o conservadorismo medroso.

Conhecemos bem o Partido e, muitas vezes, já não nos reconhecemos naquilo que ele parece ser, nas formas como age, nas próprias ideias políticas (que não configuram qualquer ideologia como sistema) que manifesta.

Consideramos que se está uma etapa fundamental da democracia em Portugal e que é fundamental que o PS recupere a sua posição de esquerda democrática e socialista que teve durante mais de 20 anos e que, hoje em dia, é difícil de encontrar.

Passará por roturas e conflitosinternos e externos, sem dúvida.

Estamos em crer que tu, Camarada Manuel Alegre, és quem , agora, melhor poderá ganhar esta batalha , para um partido redignificado, com lideres por quem se possa ter consideração e respeito pessoal.

Estivemos no lançamento da Campanha, no Rato. Disseste quase tudo o que acima escrevemos, o que os satisfez, obviamente. Mas disseste mais e nós também concordámos. E saímos satisfeitos, os mas velhos, pelo menos, por reencontrar um discurso e uma postura num líder partidário, que nos recordou os tempos do Partido onde sentíamos orgulho e estímulo de participar.

Conta, evidentemente connosco, para o que for necessário.

Com as nossas saudações socialistas e votos de sucesso,

ANDRÉ FONSECA FERREIRA

ANTÓNIO SÉRGIO PESSOA

ÁLVARO SANTOS SILVA

Publicado por Manuel Alegre às 09:28 PM | Comentários (9)

Candidato surpreendido com recusa de José Sócrates para debates na Comunicação Social

A recusa manifestada hoje pela candidatura de José Sócrates de participar em debates promovidos ou abertos à Comunicação Social deixou muito surpreendido o candidato Manuel Alegre, que a considera uma posição "extraordinária de quem andou durante quase dois anos a fazer debates na televisão com o actual primeiro ministro".
Manuel Alegre estranha que, depois de José Sócrates nos seus debates com Pedro Santana Lopes "ter andado a fazer elogios à mediatização da política se recuse agora debater com os seus camaradas de partido" e lembra que "o Partido Socialista não é um partido fechado nem tem nada a esconder, quer da comunicação social quer da sociedade civil".
As candidaturas de Manuel Alegre e João Soares mantêm a sua disponibilidade para aceitar os convites já feitos pela Comunicação Social e pela FAUL, que propôs um debate moderado por jornalistas, mesmo sem a presença de José Sócrates.

Publicado por Manuel Alegre às 09:08 PM | Comentários (10)

Manuel Alegre reafirma confiança na Comissão Organizadora do Congresso e quer todos os militantes a votar

A propósito das suspeitas levantadas por uma das candidaturas sobre o processo eleitoral para o Congresso do Partido Socialista, o candidato Manuel Alegre reafirma a sua confiança na Comissão Organizadora do Congresso e reitera o desejo de ver todos os militantes socialistas a votar. Para isso, considera, "há necessidade da máxima transparência no pagamento de quotas e de averiguar a forma como está a ser feito esse pagamento".

Publicado por Manuel Alegre às 09:06 PM


Doentes poderão ter de pagar muito mais pelos medicamentos


As medidas de descomparticipação de medicamentos, agora anunciadas pelo governo, podem levar a que muitos doentes se vejam impedidos de aceder a medicamentos indispensáveis quando não existe alternativa disponível. O governo manifesta algum desnorte face ao crescimento da despesa com medicamentos que se verificou nos primeiros meses deste ano. Esta subida contraria o discurso triunfalista do governo sobre os efeitos dos genéricos no combate ao crescimento da despesa. Mas com a política actual, os doentes poderão ter de vir a gastar muito mais para ter acesso aos medicamentos de que necessitam. O diploma de 1998, que o governo agora vai buscar, inseria-se num contexto protocolado com a indústria farmacêutica, que limitava o crescimento da despesa mas permitia a previsibilidade indispensável aos investidores.

Maria de Belém Roseira

Publicado por Manuel Alegre às 06:59 PM

Índex

Número de autores (incluindo Remarque, Torga, Voltaire, Bernstein, Pessoa, Popper e Vinícius de Moraes) citados pelo dirigente socialista (e candidato à liderança do PS) José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa na entrevista ao "Expresso" de 24 de Julho de 2004: 8
Idade com que o dirigente socialista (e candidato à liderança do PS) José Sócrates bebeu vinho tinto pela primeira vez: 20
Número de obras diferentes da autoria do dirigente socialista (e candidato à liderança do PS) Manuel Alegre de Melo Duarte incluídas na Base Nacional de Dados Bibliográficos (Porbase): 47
Número de fotografias do dirigente socialista (e candidato à liderança do PS) João Barroso Soares presentes na página oficial www.joaosoares.net: 115
(in Índex, de Paulo Anunciação, na revista Pública, de 01.08.2004)

Publicado por Manuel Alegre às 02:52 PM | Comentários (1)

O telepopulismo veio para ficar?

João Cravinho alertou há dias para os riscos do telepopulismo. O artigo (DN,31.Jul.04) abre um importante debate sobre as formas de combate eficazes para derrotar o populismo.Eis o texto integral:

«Em consequência da decisão presidencial o país mergulhou abruptamente numa nova realidade.

De forma arrasadora, emergiu uma nova realidade pública comandada por telepopulismo como quadro quase único estruturante, legitimador e aferidor da acção política. A nível de Governo, mas também, e ainda mais relevantemente, a nível de partidos e de responsáveis políticos.

Neste novo contexto, a questão central para o futuro de Portugal já não é saber como e até quando governará Santana. Variações pessoais à parte, a questão central passou a ser a real possibilidade de o telepopulismo se prolongar por largos anos, dominando e empobrecendo o funcionamento de todo o sistema político por via da subordinação conjugada de governo e oposição à sua lógica reducionista.

Não faltam os diagnósticos do telepopulismo, suas causas, seus efeitos. Só da comunicação social de ontem poderia retirar várias e oportunas citações. Por todos, cito duas breves de Miguel Gaspar (DN) «Ideias, projectos, programas? Isso, hoje em dia, não é política» seguida da seguinte análise: «Feita à medida da televisão, a política tornou-se um mero jogo de aparências. O discurso jornalístico sobre esse jogo não passa de um discurso sobre o vazio. Já não fala das mensagens, limita-se a medir a eficácia da propaganda e, assim, a legitimá-la».

Não creio que a política/jogo de aparência possa resolver um só dos grandes problemas nacionais. Os magos do telepopulismo poderão ganhar uma ou duas eleições, satisfazendo entretanto a voracidade clientelar e negocista de muitos dos seus apoiantes.

Mas acabarão derrubados pelos próprios efeitos perversos do telepopulismo, deixando o país mais frustrado e desorientado e as suas instituições políticas mais desacreditadas, os seus pares mais menosprezados.

Vivem-se tempos extraordinários entre o aturdimento e o pesadelo. Nunca se viu um governo de Portugal tão mal preenchido, tão desarticulado, tão desorganizado.

Hoje ainda se discute quem fica com o quê no âmbito da lei orgânica do governo. As expectativas são baixas. Mas seria um grave erro pensar que Santana caminha necessariamente para uma derrota eleitoral em 2006. Nessa altura poderá contar mais a imagem e a demagogia de Santana, sobretudo se a oposição apostar em registo similar.

Como escreveu Sousa Tavares no Público de anteontem «a imagem e a demagogia afastaram a reflexão e a ideologia. O que fazer? A ambição e o oportunismo substituíram a verdade e a coragem».

Que fazer? O que propõe Manuel Alegre: não há política sem coragem, sem ideias, sem ideologia, sem transparência e cultura de responsabilidade perante o soberano democrático.

O telepopulismo não existe no vazio, também não é de geração espontânea. Prepara-se e cresce de acordo com a real estrutura dos poderes fácticos do sistema. O seu húmus está no pântano dos interesses que lá se vão amanhando enquanto o mago de serviço distribui charme, soundbytes e arrebanha votos, até ver. Logo substituído por alternante.

Contra o telepopulismo, acima de tudo coragem e verdade.»


Em consequência da decisão presidencial o país mergulhou abruptamente numa nova realidade.

De forma arrasadora, emergiu uma nova realidade pública comandada por telepopulismo como quadro quase único estruturante, legitimador e aferidor da acção política. A nível de Governo, mas também, e ainda mais relevantemente, a nível de partidos e de responsáveis políticos.

Neste novo contexto, a questão central para o futuro de Portugal já não é saber como e até quando governará Santana. Variações pessoais à parte, a questão central passou a ser a real possibilidade de o telepopulismo se prolongar por largos anos, dominando e empobrecendo o funcionamento de todo o sistema político por via da subordinação conjugada de governo e oposição à sua lógica reducionista.

Não faltam os diagnósticos do telepopulismo, suas causas, seus efeitos. Só da comunicação social de ontem poderia retirar várias e oportunas citações. Por todos, cito duas breves de Miguel Gaspar (DN) «Ideias, projectos, programas? Isso, hoje em dia, não é política» seguida da seguinte análise: «Feita à medida da televisão, a política tornou-se um mero jogo de aparências. O discurso jornalístico sobre esse jogo não passa de um discurso sobre o vazio. Já não fala das mensagens, limita-se a medir a eficácia da propaganda e, assim, a legitimá-la».

Não creio que a política/jogo de aparência possa resolver um só dos grandes problemas nacionais. Os magos do telepopulismo poderão ganhar uma ou duas eleições, satisfazendo entretanto a voracidade clientelar e negocista de muitos dos seus apoiantes.

Mas acabarão derrubados pelos próprios efeitos perversos do telepopulismo, deixando o país mais frustrado e desorientado e as suas instituições políticas mais desacreditadas, os seus pares mais menosprezados.

Vivem-se tempos extraordinários entre o aturdimento e o pesadelo. Nunca se viu um governo de Portugal tão mal preenchido, tão desarticulado, tão desorganizado.

Hoje ainda se discute quem fica com o quê no âmbito da lei orgânica do governo. As expectativas são baixas. Mas seria um grave erro pensar que Santana caminha necessariamente para uma derrota eleitoral em 2006. Nessa altura poderá contar mais a imagem e a demagogia de Santana, sobretudo se a oposição apostar em registo similar.

Como escreveu Sousa Tavares no Público de anteontem «a imagem e a demagogia afastaram a reflexão e a ideologia. O que fazer? A ambição e o oportunismo substituíram a verdade e a coragem».

Que fazer? O que propõe Manuel Alegre: não há política sem coragem, sem ideias, sem ideologia, sem transparência e cultura de responsabilidade perante o soberano democrático.

O telepopulismo não existe no vazio, também não é de geração espontânea. Prepara-se e cresce de acordo com a real estrutura dos poderes fácticos do sistema. O seu húmus está no pântano dos interesses que lá se vão amanhando enquanto o mago de serviço distribui charme, soundbytes e arrebanha votos, até ver. Logo substituído por alternante.

Contra o telepopulismo, acima de tudo coragem e verdade.


Publicado por Manuel Alegre às 01:41 PM | Comentários (5)