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agosto 25, 2004

carta aberta a António Costa

De: Wanda Guimarães*

CARTA ABERTA A ANTÓNIO COSTA


“OS BARÕES E OS CIDADÃOS”


Meu Caro António,

Longe vão os tempos em que a Elisa Damião e eu te chamávamos o “puto”. Com muita ternura. Eras nessa altura um jovem promissor, inteligente, idealista e cheio de garra que arrasavas corações na Faculdade de Direito. Com amizade segui sempre de perto o teu percurso e a tua carreira política. Hoje és um quadro de relevo, deputado europeu, membro da Comissão Política e da Nacional do Partido Socialista e inúmeras vezes apontado como um seu possível secretário geral. Sempre estivemos do mesmo lado mesmo quando eu já não estava na política activa e me centrava apenas no mundo sindical. Como sabes, só me fez sentido militar, partidariamente, primeiro com Vítor Constâncio, depois com Jorge Sampaio e contigo na FAUL. Confesso que nunca achei muito aliciante ou motivador o chamado período “guterrista”. Reconheço que lhe devemos algumas coisas importantes mas quanto a resultados políticos para o Partido entendo que foi “match nulo” - uma vitória (finalmente) e uma derrota (como corolário da sua saída do governo).

O poder pode muito e é muito sedutor mas não chegou para disfarçar a desoladora realidade: uma espécie de “novo riquismo político” a emergir, o reforço da mentalidade e dos comportamentos “aparelhísticos”, o desleixo do debate político, a desvalorização da ideologia, o vazio das ideias e a completa subalternização dos militantes, para ser simpática e só falar no mais evidente. No entanto teve uma vantagem (terá sido mesmo uma vantagem?) a de reunir num mesmo governo alguns bons quadros oriundos de diversas “sensibilidades” que tinham coexistido até então num clima de alguma fricção (fraterna). Assim chegaste a ministro de Portugal e actualmente és, não um, mas o responsável pela nossa lista no Parlamento Europeu.

Ou seja, com o teu percurso também tens uma quota parte de responsabilidade por aquilo que de bom e de mau (o politicamente correcto seria dizer menos bom!) se tem feito no Partido Socialista. Chegado aqui, deves estar a interrogar-te sobre o porquê desta introdução. Vem tudo a propósito do teu artigo “Um debate sem mistificações” que saiu no “Público”, na passada terça-feira, 17 de Agosto, no qual quiseste puxar as orelhas a alguém ou a alguns e acabaste a puxar ... as tuas e que, além disso, assinaste como simples militante.

É que simples militante sou eu! Percebo que tenhas querido recorrer a essa qualidade mas és um quadro importante do Partido e quer gostes quer não gostes, fazes parte daquilo que na gíria os militantes anónimos chamam “os notáveis, “os barões”, nem sempre com o afecto com que te estou a escrever.

Eis-nos, portanto, ao fim de todos estes anos, cada um do seu lado, posicionados de maneira diferente. Embora remetendo-me à minha insignificância actual nas estruturas de decisão e de poder do partido não posso deixar de lembrar que nas urnas o teu voto vale tanto como o meu. E no fundo é disso que te queria falar.

Uma crise de identidade não é nenhuma vergonha nem tão pouco forçosamente mau, como nos querem fazer crer. O que é nefasto, é não perceber que o mundo mudou, mudou muito e continua a mudar quer queiramos quer não. Até nós mudamos. Meter a cabeça na areia e fingir que está tudo na mesma apenas porque pensamos, numa visão pretensamente utilitária, que serve de imediato os nossos objectivos é a pior resposta que se pode dar. O drama, para nós militantes, é que a candidatura que apoias acha que já tem todas as respostas sem se dar ao trabalho de colocar as perguntas.

Se o fizerem vão perceber que as ideologias não estão ultrapassadas nem pertencem ao passado, são o futuro dos partidos vencedores. Vão perceber que as pessoas estão sedentas por poderem participar num projecto, num projecto mobilizador. Cabe ao Partido Socialista este papel. Por favor, não deixem esse espaço apenas ao futebol! Recoloquem a Política no lugar que ela merece.

Afirmas que o que nos divide não são os princípios, nem os objectivos. Não tenho tanto essa certeza. Talvez no que toca não aos objectivos, mas ao principal objectivo –derrotar a direita – tenhas razão; mas quanto aos outros, não, nomeadamente, quanto à necessidade de termos o P.S. de volta (se leres esta carta até ao fim, como espero, compreenderás o sentido desta expressão).

Sabes o que nos divide? A definição das prioridades. Na nossa vida pessoal como na política, as diferenças são estimulantes e o que constitui factor de distanciamento entre pessoas ou projectos é a elencagem das prioridades e o respectivo lugar que ocupam. E se estamos de acordo que a esquerda não pode renunciar à responsabilidade de governar, porventura, discordamos se o preço a pagar for excessivo. Não aceito que a responsabilidade de governar implique a descaracterização, ou se preferires um termo mais “soft”, a maquilhagem do Partido. Direi mesmo, que se este for o preço a pagar prefiro perder com dignidade socialista, convicta que será muito mais útil para Portugal e para os cidadãos deste país poderem contar, para os defender, com um Partido Socialista de verdade, moderno, actuante e solidário, sem receio de fantasmas ou de se recolocar à esquerda.

Era bom de facto que, como defendes “de uma vez por todas, todos se habituassem à saudável convivência democrática”, mas não chega proclamá-lo e depois fazer exactamente o contrário. O teu artigo é mesmo o melhor exemplo para evidenciar que entre a teoria e a prática o abismo é vertiginoso. Porque é de prática e de comportamentos que estamos a tratar. O que preconizas, uma verdadeira convivência democrática, só pode existir se cada um de nós, interiormente, tiver a capacidade, o discernimento e a humildade de aceitar a diferença, que é um bem que nesta campanha me está a parecer escasso, a começar por ti. A verdadeira arrogância consiste na manipulação de uma suposta “verdade absoluta”, negando a terceiros a possibilidade de acreditarem numa distinta.

Por fim, afirmas que “num partido laico e republicano, não há guardiães do templo, nem barões. Só há cidadãos”. Já agora também existem militantes (eu sei que os militantes são primeiro cidadãos mas também não esqueço que nem todos os cidadãos são militantes). Mas não é esse o cerne da questão.

Meu caro António, conhecendo tu a actual situação do Partido, só é possível produzir uma frase como esta por mero ardor literário. Há barões, claro que os há e guardiões dos templos e guardiões dos interesses e mercadores de favores e muitas outras modalidades que, infelizmente no PS, como nos outros partidos têm proliferado. Negar a evidência é desistir de mudar e desistir de mudar é resignar-se.

Para mim a palavra resignação não cabe no léxico socialista. Porque, no meu conceito, ser socialista pressupõe uma disponibilidade total para não fazer de conta, para não aceitar só porque é fácil ou porque rende mais ou porque se ganha mas sim lutar pelo que é genuíno ainda que difícil, por uma mudança partilhada e construída por todos.

É, fundamentalmente, por estas razões e em nome destes ideais/objectivos que só poderia apoiar o Manuel Alegre. Não fazia, para mim, o menor sentido, renegar aquilo que tentei, coerentemente, preservar nas minhas escolhas ao longo da vida: que são as pessoas com passado, ideais e convicções, pessoas que nunca desistem da luta, sobretudo, quando ela é difícil que nos permitem numa visão de esperança, acreditar.

É de facto insólito que alguns que não gostaram/criticaram a decisão do Presidente da República de não convocar eleições, argumentando que era pouco democrático que uns tantos “barões” do PSD (há-os em todos os partidos) escolhessem o futuro Primeiro Ministro quando essa responsabilidade caberia por direito ao Povo Português, achem agora de uma total normalidade democrática, que “x” membros (somando todos os responsáveis do PS a nível nacional, incluindo o aparelho e as federações, serão quantos, mil?), se substituam à totalidade dos militantes, indicando à partida um vencedor.

Se subtrairmos esse hipotético número ao total dos militantes anónimos teremos qualquer coisa como 76.000 votos, ou seja 76 vezes mais. È por isso da mais elementar sensatez, de vez em quando descerem à terra e deixarem os militantes decidirem. Um/a militante um voto. Nem mais.


Dêem-nos oportunidade de participar. Partilhem das nossas angústias e preocupações, aprendam a ser humildes e a ouvir. Oiçam a voz dos militantes e das pessoas em geral. Cada uma representa uma história de vida e tem algo importante para transmitir. Aprendam a valorizar os/as que lutam todos os dias por uma vida melhor, os/as que pouco ou nada possuem a não ser a sua vontade e as suas convicções que com muito empenho e amor colocam ao serviço do Partido socialista e das pessoas.

Porquê? Porque acreditam. Porque acreditam num projecto. Poderá talvez parecer estranho para alguns, mas é verdade. Acreditam que é possível construir uma sociedade mais feliz e equilibrada mas sobretudo acreditam que o seu modesto contributo é importante para a sua concretização. Nós, com o Manuel Alegre acreditamos.


Cascais, 22 de Agosto de 2004


* sindicalista, militante de base do PS

Publicado por Manuel Alegre às agosto 25, 2004 09:18 AM

Comentários

Para comentar a sua carta tenho que para frasear "António Mega Ferreira":

Há muito tempo que ninguém falava com tanta veemência e clareza sobre o que deve ser um conceito de poder alternativo àquele com que a direita tem vindo a esfacelar o Pais, nos últimos dois anos e meio.

Pela primeira vez na minha vida, tenho pena ( é uma forma de expressão ) de não ser militante do PS: se o fosse, teria, ao menos, a possibilidade de votar em Manuel Alegre.

Publicado por: António José Mourato em agosto 25, 2004 01:36 PM

Para comentar a sua carta tenho que para frasear "António Mega Ferreira":

Há muito tempo que ninguém falava com tanta veemência e clareza sobre o que deve ser um conceito de poder alternativo àquele com que a direita tem vindo a esfacelar o Pais, nos últimos dois anos e meio.

Pela primeira vez na minha vida, tenho pena ( é uma forma de expressão ) de não ser militante do PS: se o fosse, teria, ao menos, a possibilidade de votar em Manuel Alegre.

Publicado por: António José Mourato em agosto 25, 2004 01:38 PM

Sempre pensei que fazer política é compreender, avaliar e agir. Compreender e interpretar a realidade; avaliar e ajuizar critérios e objectivos;agir, decidir e intervir para mudar o que está mal, o que é injusto ou ineficaz.
Em política, a compreensão sem acção torna-se inútil. A acção sem compreensão é mera agitação inconsequente. A compreensão sem valores são a negação do que, desde os Gregos, deve ser a política: visar o bem comum, assegurando o bom governo, a justiça e a equidade nas oportunidades.
A escritora Marguerite Yourcenar alertou bem para os perigos da política sem estes valores sólidos, atacando aqueles que apenas se preocupam em garantir a pontualidade dos comboios, não se importanto com o rumo e com o seu destino.
Claro que política também é comunicação, pois sem ela não há comunidade, não há partilha, não há pertença. Comunicar é saber transmitir mensagens, é saber ouvir, é valorizar o debate, é informar e ser informado.
Tudo isto tem sido incompatível com o funcionamento do nosso PS, tudo isto tem sido incompatível com a sobreposição de outros objectivos mais imediatos e pessoalmente mais aliciante para alguma "classe" dirigente.
Por tudo isto, apoio Manuel Alegre. Porque tenho esperança ( ainda tenho alguma esperança ) no meu PS.
Louvo a sua carta frontal e que se nota veio de dentro da Alma.

Publicado por: Eliana Pinto em agosto 25, 2004 04:14 PM

Muito bem Vanda. Gosto muito da tua coragem.

Publicado por: Francisco Fortunato em agosto 26, 2004 01:03 AM

Wanda:

Já nos vimos, mas, na realidade, não nos conhecemos. Isto prova, creio eu que os meus comentários estão livres de encenações ou cumplicidades, próprias de lisonjas entre amigos, que dão jeito para impressionar terceiros.
A sua carta a AC é, além de tudo, a reprodução em texto de tudo aquilo que muitos cidadãos comentam, criticam e reprovam num conjunto, infelizmente cada vez mais vasto, de políticos que, chegados à cadeira do poder, destroiem os cadernos dos princípios e se revestem da patine de baronato.
Tenhamos em conta que a patine é um fenómeno de oxidação e AC oxidou-se. Mais um e este inesperado. Que, tal como os demais, pretende visar quem pensa diferente com os epítetos que só a ele e aos seus "compagnons de route" assentam que nem uma luva. Ao José Sócrates, ao Pina Moura e alguns mais que as televisões mostraram, deixando-me incrédulo (AC ali?).
Paciência... foi mais um que se transfigurou, ou não. Vamos lá saber se quem conhecíamos era, de facto, o verdadeiro AC...
Mas, é por tudo isto, e não é pouco, que vale a pena apoiar Manuel Alegre.
Wanda, como cidadão, estou-lhe grato. Só lamento não poder votar, porque não sou militante.

Publicado por: Carlos Fonseca em agosto 30, 2004 11:00 PM