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agosto 16, 2004

Da Radiografia de um Partido ao Significado de uma Candidatura

Manuel Alegre é candidato à liderança do Partido Socialista. Ao longo de uma vida envolvida na resistência à ditadura, na exigência de democraticidade no processo revolucionário que se seguiu ao 25 de Abril de 1974, no exercício das suas funções políticas e da sua persistente participação cívica, Manuel Alegre foi sempre um Homem frontal, a enfrentar, olhos nos olhos, a realidade. Com respeito mas com firmeza e uma muito pouco usual ousadia no espectro político português, Manuel Alegre foi sendo cada vez mais um Homem dotado de uma razão lógica implacável expressa sob o sentimento da paixão pelas causas sociais que sempre sobrepõe a qualquer objectivo social e político. Como para o Professor Sousa Franco, para Manuel Alegre, a economia deve ter como finalidade o bem-estar social das pessoas mantendo uma clara consciência do país iletrado e pobre que somos; por isso, assume natural, convicta e sustentadamente o socialismo como única forma de equilibradamente ascendermos ao desenvolvimento que há tanto perseguimos sem alcançar. Penso até que Manuel Alegre subscreveria a frase do poeta Nelson Rodrigues: "Qualquer indivíduo vale mais que a Via Láctea" e isso leva-me a dizer: o Poeta deveria ser o próximo Secretário Geral do Partido Socialista. Porquê? Porque o sonho, a utopia, a determinação, o sentido de justiça, a sensibilidade à injustiça e a expressão da indignação são as causas e as formas que os poetas têm de perceber e encarar o mundo. Porque, tal como já Platão o percebera na Grécia Antiga (construindo a sua tese política da governação da cidade por um Rei-Filósofo cuja gestão resultaria da reflexão de um Conselho de Sábios), o Poder deve ser exercido pelo Saber e a candidatura de Manuel Alegre parece a que mais se aproxima de tal proposta já que, ele próprio poeta e político, tem na sua candidatura os rostos mais credíveis da governação nacional das últimas décadas: Alberto Martins, Ana Benavente, Ana Gomes, Augusto Santos Silva, Helena Roseta, João Cravinho, Jorge Lacão, José Magalhães, Maria de Belém, Osvaldo de Castro, Paulo Pedroso, Vera Jardim, ...
Manuel Alegre é um Democrata. De Esquerda. Consensual pelo bom senso, a lucidez e a coragem com que vê, pensa e diz. Educado, respeitador, firme e recto para com os adversários. Um Homem de Pensamento e de Acção. Descentralizador, requer transparência na gestão política interna e privilegia a aproximação aos militantes. Manuel Alegre é um Político no mais nobre sentido do termo pois à política dedicou a vida de forma desinteressada e foi o seu sentido de serviço e de solidariedade socialista que lhe permitiram aceitar protagonizar esta candidatura... porque o seu sentido de responsabilidade social e política no contexto dos equilíbrios políticos europeus ditou, como imperativo ético, aceitar representar o que ele próprio entende ser fundamental neste momento: viabilizar a eleição de um novo Secretário Geral que dê ao Partido Socialista a possibilidade de clarificar o seu projecto ideológico contemporâneo.
Separar a direcção do Partido do exercício da governação socialista é um princípio ético referencial digno de um político desinteressado que tem como objectivo devolver o Partido aos militantes e a estes a liberdade de pensar, criticar e avaliar o exercício do poder dos seus pares. Neste sentido, Manuel Alegre devolve o PS ao Partido Socialista perspectivando o seu funcionamento de forma a reduzir as dependências interpessoais desenvolvidas em relação à estrutura orgânica partidária e que, além disso, prejudicam o desenvolvimento da reflexão, da crítica e do debate interno. O Partido Socialista mais do que uma máquina pronta a assumir o poder quando as circunstâncias aí o conduzem, deve ser um espaço de construção e consolidação ideológica, de constante aperfeiçoamento metodológico e de constante revisão da capacidade de adequação entre princípios e práticas... um espaço onde os autarcas possam encontrar a ajuda técnico-política necessária à rentabilização do seu exercício do poder. Este é o papel de um partido que visa indicar um governo com o objectivo de concretizar as medidas adequadas às necessidades das populações segundo prioridades que emergem do contacto regular e sistémico em clima de diálogo permanente entre militantes e estruturas dirigentes. Criar as condições para que isto aconteça parece o grande objectivo da candidatura de Manuel Alegre, o único que não faz campanha para ser eleito Primeiro-Ministro mas apenas - porque esse é o único objectivo das eleições para o próximo Congresso! - Secretário Geral dos socialistas portugueses. Sendo quem é, Manuel Alegre eleva a uma convergência - nunca vista desde o 25 de Abril! - a consensualidade da esquerda portuguesa porque ultrapassou a moda do "fim das ideologias", do "fim da História" e das "terceiras vias". Manuel Alegre devolveu ao socialismo, com coragem e convicção, a dignidade de se afirmar, credivelmente, como forma eficaz e eficiente de elevar a qualidade de vida de uma sociedade depauperada até ao âmago... pela iletracia, pela pobreza, pela falta de hábitos democráticos nas práticas comportamentais dos portugueses (obscurecidos por séculos de manipulação ideológica) que permitiram que ainda hoje seja praticado o exercício infantilóide e meramente oportunista da política por grande parte dos seus protagonistas, designadamente ao nível local.
Inesperadamente, no início do século XXI, surge um Homem que defende com seriedade e firmeza o socialismo como método equilibrado e justo para a redução das assimetrias socio-económicas regionais num país que persiste reconhecidamente afastado dos indicadores de desenvolvimento humano europeu... E é credível! E é autêntico! Porque o que diz é dito com clareza e frontalidade e, principalmente, porque o que diz: é verdade! É por isso que o voto directo no Partido Socialista é, felizmente, secreto... Porque, para além das aparências, cada um vota em consciência, em silêncio, a sós consigo mesmo, tendo presente o conhecimento que temos do que se vive e tem vivido no interior do Partido Socialista e da esquerda portuguesa... A esquerda que é maioritária em Portugal desde as recentes eleições europeias do passado mês de Junho!
À consciência e aos princípios de cada socialista corresponde um voto! Porque a liberdade do voto não tem nem pode ter um preço! Porque a liberdade de opção é individual e inalienável, o voto sendo exercício do direito de expressão é, também, o direito ao silêncio!

Ana Paula Fitas

Publicado por Manuel Alegre às agosto 16, 2004 03:44 PM

Comentários

Porque considero importante, permita-me que discorde da sua frase:
"A esquerda que é maioritária em Portugal desde as recentes eleições europeias do passado mês de Junho!"
Para dizer que a esquerda sempre tem sido maioritária em Portugal. O que sucede é que o sistema politico não espelha essa realidade.
António José

Publicado por: António José em agosto 16, 2004 05:32 PM

A Ana Paula Fitas teve o dom de conseguir exprimir duma forma magnífica o que vai na alma dos Socialistas relativamente ao camarada Manuel Alegre e á importância da sua candidatura.
Um grande Bem Haja por isso.

Publicado por: J. Leme de Mendonça em agosto 17, 2004 04:41 PM

tenho uma pergunta a fazer á Manuel Alegre. Por favor. Eu sou Dinamarques - e se trata de traduzir á dinamarques/"reescrever" a sua poesia.
Que é preciso p´ra isso ?

Hej fra Klaus Schøtt-Krintensen
( En dansk fan/Um fá dinamarques.

Publicado por: Schoett-Kristensen_K. em agosto 22, 2004 04:12 PM