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agosto 28, 2004

Eduardo Prado Coelho: razões de um apoio

Ao escrever esta crónica, creio que é necessário começar por dizer que, no âmbito das opções que se colocam ao Partido Socialista neste momento, a minha escolha e o meu campo são aqueles que aparecem representados por Manuel Alegre. Sem hesitações, nem estados de alma. Claramente. Não é que não veja que José Sócrates tem neste momento inúmeras condições para vencer e que os militantes de base se preparam para lhe dar uma vitória explícita. Vejo também - e este é o argumento pragmático mais frequentemente invocado - que Sócrates poderá ser o adversário mais eficaz em relação a Pedro Santana Lopes. Entre os seus apoiantes conta-se gente de grande qualidade, capaz de formar um governo sólido e consistente. E por conseguinte Sócrates poderá aparecer como a personagem mais bem colocada para vencer a direita populista. A não ser que - e esta reserva tem inequívoco peso - os eleitores achem que há demasiados pontos de contacto entre o PSD e este PS e considerem que não vale a pena mudar para algo que está próximo. Pode acontecer.

Pode também suceder que a sequência de erros e desaires do Governo Santana Lopes seja de tal modo clamorosa que seja mais por motivos de estilo, caos e ridículo que a mudança se torna desejada.

Antóno Mexia fez bem em manter Fernando Pinto à frente da TAP. O modo como o fez é que foi completamente desastrado: através de uma fuga de informação. Nobre Guedes tem-se mostrado completamente irrequieto e infantil nas declarações em que se multiplicou. Paulo Portas terá em breve que utilizar submarinos no combate aos incêndios. A saga dos secretários de Estado deslocalizados tem uma ilustração saborosa na guerra entre Santarém e a Golegã. Escolhida esta última, que verificamos? Que reina grande alegria, porque o secretário de Estado da Agricultura disse à dona do café que com a nova Secretaria de Estado teria de aumentar as instalações... Razão tinha "O Inimigo Público", quando imaginava um cidadão da província chegar à sua morada e encontrar na casa de jantar as novas instalações de uma Secretaria de Estado deslocalizada.

Mas entre o formalismo de um nacionalismo partidário (recuperar os símbolos e a retórica antifascista) defendido por João Soares e o socialismo evanescente que parece ressaltar das intervenções de José Sócrates (apesar do enorme esforço para dar espessura às suas concepções ideológicas), Manuel Alegre tem outra memória, outra cultura, outra dignidade e outra força. Podemos dizer que ele representa um certo sector minoritário dentro do PS. Que importa? Em casa dos meus pais havia uma velha empregada que não ia votar porque não sabia quem é que ganhava. O que Manuel Alegre representa dentro do PS não se contabiliza. Podemos pensar que João Cravinho ou Manuel Maria Carrillho são mais "modernos" no discurso. Mas nem a oposição moderno "vs" arcaico, nem moderado "vs" radical são suficientes para enquadrar a formulação daquilo que hoje aparece como essencial para um projecto de esquerda.

Embora os disparates da direita convidem à preguiça, esta é uma ocasião essencial para pretender ir mais longe numa ideia de conjunto para o Portugal europeu dos nossos dias.


EDUARDO PRADO COELHO, Público,
Segunda-feira, 09 de Agosto de 2004

Publicado por Manuel Alegre às agosto 28, 2004 12:12 AM