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agosto 02, 2004
O telepopulismo veio para ficar?
João Cravinho alertou há dias para os riscos do telepopulismo. O artigo (DN,31.Jul.04) abre um importante debate sobre as formas de combate eficazes para derrotar o populismo.Eis o texto integral:
«Em consequência da decisão presidencial o país mergulhou abruptamente numa nova realidade.
De forma arrasadora, emergiu uma nova realidade pública comandada por telepopulismo como quadro quase único estruturante, legitimador e aferidor da acção política. A nível de Governo, mas também, e ainda mais relevantemente, a nível de partidos e de responsáveis políticos.
Neste novo contexto, a questão central para o futuro de Portugal já não é saber como e até quando governará Santana. Variações pessoais à parte, a questão central passou a ser a real possibilidade de o telepopulismo se prolongar por largos anos, dominando e empobrecendo o funcionamento de todo o sistema político por via da subordinação conjugada de governo e oposição à sua lógica reducionista.
Não faltam os diagnósticos do telepopulismo, suas causas, seus efeitos. Só da comunicação social de ontem poderia retirar várias e oportunas citações. Por todos, cito duas breves de Miguel Gaspar (DN) «Ideias, projectos, programas? Isso, hoje em dia, não é política» seguida da seguinte análise: «Feita à medida da televisão, a política tornou-se um mero jogo de aparências. O discurso jornalístico sobre esse jogo não passa de um discurso sobre o vazio. Já não fala das mensagens, limita-se a medir a eficácia da propaganda e, assim, a legitimá-la».
Não creio que a política/jogo de aparência possa resolver um só dos grandes problemas nacionais. Os magos do telepopulismo poderão ganhar uma ou duas eleições, satisfazendo entretanto a voracidade clientelar e negocista de muitos dos seus apoiantes.
Mas acabarão derrubados pelos próprios efeitos perversos do telepopulismo, deixando o país mais frustrado e desorientado e as suas instituições políticas mais desacreditadas, os seus pares mais menosprezados.
Vivem-se tempos extraordinários entre o aturdimento e o pesadelo. Nunca se viu um governo de Portugal tão mal preenchido, tão desarticulado, tão desorganizado.
Hoje ainda se discute quem fica com o quê no âmbito da lei orgânica do governo. As expectativas são baixas. Mas seria um grave erro pensar que Santana caminha necessariamente para uma derrota eleitoral em 2006. Nessa altura poderá contar mais a imagem e a demagogia de Santana, sobretudo se a oposição apostar em registo similar.
Como escreveu Sousa Tavares no Público de anteontem «a imagem e a demagogia afastaram a reflexão e a ideologia. O que fazer? A ambição e o oportunismo substituíram a verdade e a coragem».
Que fazer? O que propõe Manuel Alegre: não há política sem coragem, sem ideias, sem ideologia, sem transparência e cultura de responsabilidade perante o soberano democrático.
O telepopulismo não existe no vazio, também não é de geração espontânea. Prepara-se e cresce de acordo com a real estrutura dos poderes fácticos do sistema. O seu húmus está no pântano dos interesses que lá se vão amanhando enquanto o mago de serviço distribui charme, soundbytes e arrebanha votos, até ver. Logo substituído por alternante.
Contra o telepopulismo, acima de tudo coragem e verdade.»
Em consequência da decisão presidencial o país mergulhou abruptamente numa nova realidade.
De forma arrasadora, emergiu uma nova realidade pública comandada por telepopulismo como quadro quase único estruturante, legitimador e aferidor da acção política. A nível de Governo, mas também, e ainda mais relevantemente, a nível de partidos e de responsáveis políticos.
Neste novo contexto, a questão central para o futuro de Portugal já não é saber como e até quando governará Santana. Variações pessoais à parte, a questão central passou a ser a real possibilidade de o telepopulismo se prolongar por largos anos, dominando e empobrecendo o funcionamento de todo o sistema político por via da subordinação conjugada de governo e oposição à sua lógica reducionista.
Não faltam os diagnósticos do telepopulismo, suas causas, seus efeitos. Só da comunicação social de ontem poderia retirar várias e oportunas citações. Por todos, cito duas breves de Miguel Gaspar (DN) «Ideias, projectos, programas? Isso, hoje em dia, não é política» seguida da seguinte análise: «Feita à medida da televisão, a política tornou-se um mero jogo de aparências. O discurso jornalístico sobre esse jogo não passa de um discurso sobre o vazio. Já não fala das mensagens, limita-se a medir a eficácia da propaganda e, assim, a legitimá-la».
Não creio que a política/jogo de aparência possa resolver um só dos grandes problemas nacionais. Os magos do telepopulismo poderão ganhar uma ou duas eleições, satisfazendo entretanto a voracidade clientelar e negocista de muitos dos seus apoiantes.
Mas acabarão derrubados pelos próprios efeitos perversos do telepopulismo, deixando o país mais frustrado e desorientado e as suas instituições políticas mais desacreditadas, os seus pares mais menosprezados.
Vivem-se tempos extraordinários entre o aturdimento e o pesadelo. Nunca se viu um governo de Portugal tão mal preenchido, tão desarticulado, tão desorganizado.
Hoje ainda se discute quem fica com o quê no âmbito da lei orgânica do governo. As expectativas são baixas. Mas seria um grave erro pensar que Santana caminha necessariamente para uma derrota eleitoral em 2006. Nessa altura poderá contar mais a imagem e a demagogia de Santana, sobretudo se a oposição apostar em registo similar.
Como escreveu Sousa Tavares no Público de anteontem «a imagem e a demagogia afastaram a reflexão e a ideologia. O que fazer? A ambição e o oportunismo substituíram a verdade e a coragem».
Que fazer? O que propõe Manuel Alegre: não há política sem coragem, sem ideias, sem ideologia, sem transparência e cultura de responsabilidade perante o soberano democrático.
O telepopulismo não existe no vazio, também não é de geração espontânea. Prepara-se e cresce de acordo com a real estrutura dos poderes fácticos do sistema. O seu húmus está no pântano dos interesses que lá se vão amanhando enquanto o mago de serviço distribui charme, soundbytes e arrebanha votos, até ver. Logo substituído por alternante.
Contra o telepopulismo, acima de tudo coragem e verdade.
Publicado por Manuel Alegre às agosto 2, 2004 01:41 PM
Comentários
Boa Tarde
Entrevista muito bem conseguida e que de alguma forma deu para marcar as diferenças em relação às outras candidaturas.
Quando a política já andava de certa forma a entrar em circuitos meramente economicistas, eis que se faz luz e Esperança, à liderança do nosso PS apresenta-se um candidato, que não tem vergonha do programa e da doutrina que sempre fizeram de nós o baluarte da democracia e da liberdade, Um candidato SOCIALISTA que não se envergonha de o ser.
Por tudo isso obrigado camarada, conte comigo
CL
Publicado por: Carlos Barros Leal em agosto 2, 2004 04:23 PM
caro camarada manuel alegre,é estranha a forma como tem sentido a constante necessidade de se afirmar como homem de esquerda talvez para poder dizer que outros camaradas o não são?ser de ESQUERDA amigo manuel alegre é hoje acima de tudo uma maneira de ser e de estar na vida diáriamente e não uma ideologia ou princípio progamático!o que é importante hoje no PS é dar voz e decisão constante aos militantes,serão eles que em cada momento definirão o que deve ser o PARTIDO.como militante é com desgosto que começo a assistir a uma acção de ataques pessoais e insinuações que apenas levam á degradação da imagem do PS para gáudio dos nossos detractores e verdadeiros adversários.os portugueses exigem do PARTIDO coesão, dinâmica,trabalho político em defesa dos seus direitos.MANUEL ALEGRE é assim que seremos de ESQUERDA.
Publicado por: militante e sindicalista em agosto 3, 2004 10:38 AM
caro camarada manuel alegre,é estranha a forma como tem sentido a constante necessidade de se afirmar como homem de esquerda talvez para poder dizer que outros camaradas o não são?ser de ESQUERDA amigo manuel alegre é hoje acima de tudo uma maneira de ser e de estar na vida diáriamente e não uma ideologia ou princípio progamático!o que é importante hoje no PS é dar voz e decisão constante aos militantes,serão eles que em cada momento definirão o que deve ser o PARTIDO.como militante é com desgosto que começo a assistir a uma acção de ataques pessoais e insinuações que apenas levam á degradação da imagem do PS para gáudio dos nossos detractores e verdadeiros adversários.os portugueses exigem do PARTIDO coesão, dinâmica,trabalho político em defesa dos seus direitos.MANUEL ALEGRE é assim que seremos de ESQUERDA.
Publicado por: militante e sindicalista em agosto 3, 2004 10:48 AM
Não sei se já se aperceberam de que toda essa "raiva", incompreensível, contra o Sócrates só está a aumentar o número de militantes que vão votar neste candidato. Eu, por exemplo, que sou militante recente do PS e que sou, há muitos anos, de esquerda, tinha dúvidas em qual dos candidatos votar, mas, neste momento, perante tudo o que li e ouvi, não tenho mais nenhuma dúvida: é em Sócrates!
Publicado por: Clara em agosto 6, 2004 03:46 PM
O Josias Gil de S. João da Madeira deixou acima uma séria de patacoadas a atirar para o filosófico, que contraria tudo o que a sua prática política indicia.
Vamos a uma questão formal que aborda, copiando, de resto, o que tinha já sido dito pelo seu apoiado, M Alegre.
Que faria Sócrates caso não vencesse as legislativas com maioria absoluta? Apoiar-se-ia no PP, no PSD ou voltaria ao processo do queijo Limiano? Claro que é boa pergunta e cuja resposta ficou implícita em documentos de Sócrates, só que politicamente, foi entendido ser mais correcto dizer-se que a não maioria absoluta é hipótese que se não põe. Pensará alguém que Sócrates é menos atreito à esquerda do que a generalidade dos apioantes de Alegre e, por maioria, do que o tal de Josias?
Mas coloca-se logo outra questão. Em caso de não vitória com maioria absoluta em legislativas, que faria Alegre ou outro, se os PC e/ou BE quisessem vender os votos por preços que custassem a alma do PS? Que nos diz a história recente? Lembra-se o J Gil que no último orçamento (2002) Guterres chegou a ter negociações quase fechadas com os 2 Verdes? Sabe que foram subindo a fasquia até limite que não seria transponível pelo PS? Se, na altura, o Governo tivesse apresentado uma Moção de Confiança, achará o Josias que o PC, O BE se não aliaria ao PP/PSD para um voto conjunto e direccionado à queda do Governo? Claro que sim. Por uma capacidade de pressionar a esquerda à esquerda do PS alia-se PRIMEIRO à extrema direita. Ver na Câmara do Porto e outros tantos exemplos. E não haverá muitos mais, porque as situações não têm ocorrido. Que faria qualquer candidatura se as exigências para um acordo desvirtuasem a orientação política e económica do PS? Depois ver-se-ia, dirão. O Tanas!!
Publicado por: José Silva em agosto 14, 2004 04:34 PM