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agosto 11, 2004

SOCIALITES

José Sócrates tem razão: só por má fé se pode dizer que ele é igual a Santana!


Senão vejamos, começando pelo mais recente: seria Santana capaz de assinar um artigo como o publicado pelo Público (2/8/04) sob o título "Um plano tecnológico para uma alternativa"? A resposta só pode ser negativa, não porque Santana não seja homem para ler artigos que outros lhe escrevem - ao que dizem alguns articulistas, tal terá sido o caso do discurso de posse -, mas por duas outras ordens de razões: (i) Santana, com todos os seus defeitos, é um político espontâneo e descontraído enquanto Sócrates, com todas as suas virtudes, é um produto programado e tenso; (ii) Santana, com toda a sua demagogia, tem alguma noção da sua impreparação e limites enquanto Sócrates, com toda a sua ambição, não regateia o uso do inacreditável para lhe servir os fins.

A não ser que o Mestrado em Gestão de Empresas que Sócrates está a frequentar o tenha transfigurado, quer em hábitos de trabalho quer em acesso a conhecimentos de que estava longe e que chegava a desprezar por impróprios de políticos puros e duros na sua predestinação. Neste quadro, gostei de ver o engenheiro - sim, agora haverá dois... - a procurar revelar uma sapiência inesperada, a tentar evidenciar uma capacidade de proposta de que as "más línguas" duvidavam e a esforçar-se por apresentar uma alternativa de que a sua "esquerda moderna e moderada" tanto necessitava. E tudo isto com o detalhe adicional, e não irrelevante, de uma página inteira escrita, desta vez, sem citações!

Não fora o facto de o documento não conter nada que o possa qualificar como um plano, integrando objectivos, meios, propostas concretas de actuação e formas de implementação. Não fora ter existido José Mariano Gago, um Ministro da Ciência e da Tecnologia que durante seis anos desenvolveu na área um trabalho notável. Não fora o recurso a um conjunto alargado e amplamente consensual de lugares comuns sobre a matéria que se propõe tratar e atacar. Não fora, ainda, a despropositada manifestação de uma elaboração para que não tem competência bastante, a qual nos levaria a perguntar-lhe, por exemplo: (i) o que entende por produto potencial e como calculou o da nossa economia quando alerta para que "as melhores estimativas apontam para uma taxa média de crescimento do nosso produto potencial da ordem dos dois por cento ao ano, no longo prazo"; (ii) o que entende por produtividade total dos factores quando ensina que "o motor de crescimento de uma economia é menos a quantidade de factores usados na produção, do que a produtividade total dos factores, que decorre da infra-estrutura social de cada país"; (iii) em que trabalhos se baseia para considerar que "está demonstrado que a causalidade opera do nível de qualificações para o progresso tecnológico e não em sentido inverso"; (iv) o que inclui no sector dos serviços relativamente ao qual sustenta que "importa promover, com muita determinação, a criação de valor acrescentado, fundado na diferenciação, na inovação e na qualidade".

Agora que tanto se fala, mais ou menos acertadamente, de "populismo", o texto em apreço ilustra-o em todo o seu esplendor. Um tema politicamente correcto, muitas palavras bonitas, alguma terminologia técnica, de tudo um pouco lá está presente num empacotamento que também integra, avulsamente, quase todas as "dimensões" que se julga deverem caber nos desígnios que os eleitores atribuem/querem ouvir à dita "esquerda moderna": crescimento, convergência, progresso, emprego, oportunidades, distribuição do rendimento, igualdade, produtividade, competitividade, ciência, tecnologias de informação, excelência, inovação, internacionalização, qualificação, formação, ambiente, mudança, mobilização, and so on...

Não sei que instintos de ferocidade poderão ser despertados por esta prosa no único ministro entertainer da nossa história. Como não sei que renovação se fará com base numa liderança sem rumo e sem mundo, em apelos a uma abertura à sociedade que um aparelho anquilosado e cheio de vícios e artimanhas não consentirá ou meramente instrumentalizará, na repetição de métodos insuportavelmente gastos e no desfile das caras já grotescas de inúmeros caciques partidários e "cromos" locais, em compromissos inexplicáveis e contra-natura assumidos com amigos de ocasião ou companheiros de ressabiamento. Como não sei, também, se algum dia a esperança vencerá mesmo o medo, i.e., se alguma vez prevalecerão os valores sobre o modernismo, a estratégia sobre o exercício do poder, o construtivismo sobre a estética, a experiência sobre os impulsos, a comunicação sobre a propaganda. Sei sim, e também recorrendo a palavras alheias, que pretendo questionar "se isto faz sentido ou que é que andamos aqui a fazer" - como resumiu Manuel Alegre - e assim modestamente ajudar a desmontar os factores de decadência que varrem a sociedade portuguesa; tanto quanto me revejo nesse personagem de Oscar Wilde que entoava: "A cultura depende da cozinha. Para mim, a única imortalidade que desejo é a invenção de um novo molho".


Fernando FREIRE DE SOUSA
Professor Universitário; Ex-Secretário de Estado do XIII Governo Constitucional


Publicado por Manuel Alegre às agosto 11, 2004 12:52 PM

Comentários

CITANDO OSCAR WILDE

Agora que as citações se tornaram referências vagas dos nossos registos pessoais, evocar também a prosa de Oscar Wilde, para referir, no seu livro O Declínio da Mentira - " A natureza tem decerto boas intenções, mas, como dizia Aristóteles, não consegue realizá-las..." a responsabilidade do ser humano - e não confundir com Manuel Germano - no processo eleitoral para o futuro Secretário Geral do Partido Socialista, e as consequências dos actos praticados pelos apoiantes das diversas candidaturas.

Vem esta referência a propósito da tendência de continuadamente se evocarem aspectos negativos da candidatura de José Sócrates, quando a sua militância e o seu empenho sempre foram dirigidos ao Partido Socialista, ao País, muitas vezes contra interesses instalados que sempre soube enfrentar.

Recordo só o processo da co-incineração, que tanto foi criticado e combatido por Manuel Alegre, mas que finalmente, quer a própria comissão científica quer O Tribunal Europeu, vieram a confirmar a sua validade como o único processo de valorização energética ambientalmente sustentável para a solução dos RIP.

Aos académicos exige-se rigor, meu caro professor, e as críticas, muitas vezes, ficam com quem as pratica...

Publicado por: José Pedro Rodrigues em agosto 13, 2004 11:01 AM

"É preciso estar sempre embriagado. Para não sentirem o fardo incrível do tempo, que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso. Com quê? Com vinho, poesia, ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se ", dizia BAUDELAIRE.
Isto para dizer que o tempo passa mas vemos sempre o mesmo tipo de personagens.
Meu caro José Pedro Henriques, o meu amigo saberá que o Tribunal Europeu ( não dizendo de quê ) não proferiu qualquer decisão com esse sentido, desde logo porque juridicamente não o poderia ter feito. Não lhe compete decidir isso nesses termos.Nenhuma decisão judicial o poderia fazer. A decisão judicial a que se refere foi proferida num caso concreto, como não poderia deixar de ser, e diz coisas diferentes.
Aliás, o que um Tribunal diria, do ponto de vista técnico, que os técnicos ( bioquímicos, químicos, biólogos ... )ainda não conseguiram dizer.
Quanto ao processod e co-incineração, posso dizer-lhe que já nem é o adequadamente mais desenvolvido, existindo outras vias, ambientalmente mais aconselháveis e que incluem valorização, eliminação e reciclagem sem queima.
Quanto à Comissão Científica a que indefinidamente se refere, deve estar a reportar-se à Comissão Científica independente. Pois bem se há alguma coisa essa comissão não era era independente. Se o meu bom amigo está tão bem informado, deve saber que na altura houve mais cientistas e professores catedráticos, desde Coimbra a Lisboa que eliminaram todos os argumentos dessa dita Comissão que.
Sabe, "a vida é curta demais para se beber maus vinhos.", já dizia DUIJKER, HUBRECHT .

Publicado por: José SILVA CABRAL em agosto 16, 2004 10:44 AM