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setembro 08, 2004

O debate do dia 6 visto pelo DN

INÊS DAVID BASTOS analisou nos seguintes termos o debate a 3 em que Manuel Alegre teve papel destacado (DN, 7-09-04, sob o título :"Três candidatos, duas visões do PS e da política"):
Foi bem aguerrido o debate travado na segunda-feira à noite, num hotel de Lisboa, entre os três candidatos à liderança do PS. A sala encheu-se de militantes e os ânimos chegaram muitas vezes a aquecer, sobretudo quando José Sócrates defendeu um novo referendo ao aborto, depois de os seus adversários, João Soares e Manuel Alegre Alegre, terem rejeitado esta opção. Sócrates chegou mesmo a ser apupado, o que levou o moderador do debate, o líder da Federação da Área Urbana de Lisboa e presidente da Câmara da Amadora, Joaquim Raposo, a apelar à calma diversas vezes.

Eram três candidatos mas pareciam ser dois. Alegre a Soares estiveram em sintonia em quase tudo, quer fosse nas posições políticas, mais viradas para a ruptura, quer nos ataques a José Sócrates, que tentou passar uma imagem de moderação, mais institucional.

Enquanto João Soares e Manuel Alegre defenderam a demissão do PGR e a retirada imediata da GNR do Iraque, o ex-ministro do Ambiente do Governo PS afastou-se destas posições. «Mesmo quando discordo do PGR, não participo em linchamentos políticos», disse, afirmando em relação ao Iraque: «Não alinho na demagogia de a GNR vir já para casa, deve voltar quando acabarem os compromissos internacionais.»

Mas as diferenças não se ficaram por aqui. Soares e Alegre garantiram que lutarão pela maioria absoluta, mas não descartaram negociações pós-eleitorais com o PCP ou o BE. «A estabilidade também se pode construir à esquerda», disse Alegre. «Queremos um PS de porta aberta, sem inimigos à esquerda», reforçou Soares. Sócrates, que nunca falou em alianças, acusou os seus adversários de «enfraquecerem a acção» do partido.

O debate já ia longo - durou mais de três horas - quando Sócrates e Alegre entraram, de novo, em «picardia». O mote foi, primeiro, a questão presidencial. Sócrates disse não ter «dúvidas de que António Guterres é o melhor candidato». Alegre atirou: «O camarada só tem certezas, eu ainda tenho dúvidas.» O vice-presidente do Parlamento argumentou que é preciso saber previamente «quem será o candidato da direita» e acusou Sócrates de «usar o nome» de Guterres na disputa pela liderança do PS.

O segundo mote foi o silêncio de Alegre sobre a sua disponibilidade para ser candidato a primeiro-ministro. José Socrates insistiu numa clarificação, exortou o seu adversário a ser «transparente» e voltou a pressionar. Visivelmente irritado, o vice-presidente do Parlamento abriu o jogo: «Fique descansado, se o partido quiser serei candidato a primeiro-ministro.»

As questões internas também não geraram consenso. O ex-ministro do Ambiente criticou Alegre por se dirigir apenas «às classes médias empobrecidas». «O PS nasceu historicamente dos trabalhadores e eu não esqueço as minhas origens», ripostou Alegre. O candidato-poeta disse preto no branco que há «lógicas aparelhistas dentro do PS» e defendeu a renovação do partido. Sócrates negou essa acusação e considerou que o partido «deve ser fiel às suas posições de sempre».

O debate acabou como começou: com uma clara divisão entre o pensamento e estratégia de Sócrates, por um lado, e de Alegre e Soares, por outro.

Publicado por Manuel Alegre às 07:44 PM | Comentários (23)

MANUEL MARIA CARRILHO analisa "Os Fantasmas da Verdade"

Em artigo no Público(07 de Setembro de 2004),MANUEL MARIA CARRILHO analisa "Os Fantasmas da Verdade",ajudando a impedir práticas de reescrita da História e a avaliar a postura das candidaturas e o mérito dos candidatos em campanha. O artigo responde ainda a um escrito de Arons de Carvalho.É do seguinte teor:

«O Partido Socialista prepara o seu congresso e a eleição, por sufrágio directo de todos os seus militantes, de um novo secretário-geral. Para quem pense que do congresso deve sair um novo projecto político a apresentar ao país, capaz de corrigir os erros do passado, de potenciar o muito que de bom se fez quando esteve no Governo e de inovar onde não tem havido ideias ou respostas, este período é decisivo.

Como também é decisivo para quem pense que, no que se refere ao novo secretário-geral, estas eleições servem, não para estender uma passadeira vermelha aos pés da ambição pessoal deste ou daquele militante por este ou para aquele cargo, mas para que o partido escolha alguém com capacidade para o servir em todas as circunstâncias - que, em política, como se sabe e bem se tem visto, são em geral muito imprevisíveis.

Se é disto que se trata, o debate entre os candidatos e os seus projectos é vital - e deve ser tão frontal como fraterno, tão exigente como generoso. É por isso deplorável a reiterada recusa de José Sócrates em fazer debates a dois com os outros candidatos, dando assim escusadamente razão a quem o acusa de só o fazer no modelo... "Dupont e Dupond"!

Neste contexto, é com prazer que respondo ao texto do Arons de Carvalho "Por um congresso sem fantasmas" (PÚBLICO, 22-08-04), e fá-lo-ei com a mesma exigência de verdade que pus no meu texto "A estratégia da alface", e que, pelo que agora verifiquei, Arons teve alguma dificuldade em compreender, amalgamando situações que nada têm a ver umas com as outras, a não ser no facto de se tratar de situações em que, como se sabe, o tempo fustigou os conformistas e me deu tanta razão... coisa que, esperemos, não se repita agora uma vez mais!

Devo contudo ao artigo de Arons de Carvalho ter-me ajudado a, num relance, decifrar um ponto determinante - trata-se de alguns problemas que a candidatura de José Sócrates tem com a verdade.

Passo a explicar: a reacção desta candidatura às múltiplas críticas que tem suscitado é, em geral, sempre do mesmo tipo. Procura-se iludir a duplicidade e o calculismo da sua longa e quase secreta preparação, pretende-se negar o ilegítimo aparelhismo da sua organização, tenta-se disfarçar o conformismo das suas propostas - e tudo isto se faz invocando o "fantástico" currículo do candidato. É isto, mais uma vez, o que Arons faz no seu texto, ao lembrar o "seu passado em matérias como o ambiente e a defesa do consumidor", etc.

Ora, quanto a isto, vale a pena fazer duas observações: uma, quanto ao que se apropria indevidamente, outra, quanto ao que omite deliberadamente. Ambos os pontos são, como veremos, reveladores de graves problemas com a verdade.

Quanto às apropriações: tem-se apresentado Sócrates como "o" ministro do Ambiente dos seis anos da governação socialista, a quem se deve praticamente tudo o que se fez no sector. Ora acontece, convém lembrá-lo por ser esta a verdade - e uma verdade que tem vindo a ser sistemática e intencionalmente deturpada -, que a tutela do Ambiente durante todo o primeiro Governo socialista (portanto, durante quatro anos) esteve nas mãos de Elisa Ferreira, a quem se deve o essencial do que a candidatura Sócrates anda agora a reclamar: a definição e o lançamento da estratégia da co-incineração, o fecho da quase totalidade das mais de 300 lixeiras que havia no país, mais que a duplicação da cobertura nacional do tratamento de esgotos, além de outras "pequenas" coisas como a definição da estratégia para a Cimeira de Quioto, a assinatura da Convenção das Águas com Espanha, a criação do Parque Natural do Douro internacional, o lançamento dos planos de bacia dos grandes rios internacionais, a criação dos grandes sistemas de abastecimento de águas (Águas do Douro e Paiva, Águas do Cávado, Águas do Algarve, etc.), o lançamento de todos os planos de ordenamento da orla costeira... e fiquemos por aqui.

Ninguém ignora o Polis, as facturas detalhadas ou o combate à droga, que José Sócrates ostenta, e bem, no seu currículo. Mas o modo como se tem expropriado Elisa Ferreira do seu notável mandato no Ministério do Ambiente entre 95 e 99 releva de uma torpe campanha de propaganda que nenhum socialista bem formado pode aceitar. Não direi que lembre Estaline a apagar Trotsky da fotografia, mas evoca sem dúvida Paulo Portas a apagar Freitas do Amaral da história do CDS/PP... num como noutro caso, trata-se de inaceitáveis falsificações da história para indevido proveito de alguém.

Quanto às omissões: para quem tantas vezes fala de si, é significativo o total silêncio sobre as responsabilidades que José Sócrates teve como ministro da tutela do audiovisual, isto é - entre muitas outras coisas -, da RTP, entre 1997 e 1999, justamente no período do maior colapso estratégico e financeiro da estação pública de televisão, com as tremendas consequências que ainda todos temos na memória.

É certo que este colapso convinha a quem defendia então (com argumentos neoliberais de fazer inveja a Morais Sarmento) a pura e simples extinção do serviço público de televisão. Ideia que só não avançou porque António Guterres foi felizmente mais sensível a outros argumentos e se manteve fiel à tradição e aos compromissos do PS! E também é certo que Arons de Carvalho foi o silencioso diácono de Sócrates durante todo este período. Como tal, não deixará - estou certo - de reconhecer que fica mal, num currículo tão cuidado, uma tão estranha omissão.

Tudo pode acontecer, mas seria grave que o PS pudesse um dia ser conduzido por alguém que anda por aí com um currículo em parte surripiado, em parte escondido! - são estes os "fantasmas" que, compreensivelmente, Arons de Carvalho teme que rondem o próximo congresso socialista. »

Publicado por Manuel Alegre às 07:31 PM | Comentários (61)

setembro 04, 2004

«Onda de esperança» enerva adversários , reporta o DN

Segundo o DN (pela pena de João Fonseca):
A candidatura de Manuel Alegre à liderança do PS «criou uma onda de esperança» e uma «nova dinâmica dentro e fora do partido» e isso parece ter gerado um «grande nervosismo» entre apoiantes de José Sócrates, diz o vice-presidente da Assembleia da República.

Manuel Alegre, que falava ontem, ao final da tarde, em Coimbra, numa conferência de imprensa para fazer um balanço da sua campanha, compreende esse «nervosismo», pois muitos daqueles socialistas «julgavam que havia um tapete vermelho para um candidato a secretário-geral», mas, adverte, «não se deve confundir crítica e combate político com maledicência» ou «insulto».

É bom que Sócrates diga aos seus apoiantes para se conterem, apela Alegre, considerando que António Costa «ultrapassou os limites da boa educação», numa sessão, anteontem à noite, no Cacém. «O debate político é sempre acalorado, mas há limites para tudo e às vezes pisa-se o risco», diz o candidato, sublinhando que «uma coisa é a crítica política, outra é o insulto».

Este comportamento faz parte, na perspectiva de Manuel Alegre, de uma estratégia adoptada pela candidatura de Sócrates, no sentido da «autovitimização» e «intimidação», para condicionar o debate político no seio do PS, mas, garante, nada fará com que altere os propósitos da sua candidatura. «Ninguém me calará» nem «impedirá de transmitir aquilo que muitos camaradas me têm dito», como, por exemplo, sobre «situações pouco claras» nalgumas concelhias e cuja denúncia fez com que alguns dos seus «camaradas» o acusassem de atacar os autarcas socialistas.

Publicado por Manuel Alegre às 09:21 PM | Comentários (14)

Manuel Alegre em Coimbra. ""Nunca fiz nenhum ataque aos autarcas do Partido Socialista."

O Público descreve a deslocação de MA a Coimbra, na edição de 04 de Setembro de 2004 (sob o título "Alegre Fala em "Onda" à Volta da Sua Campanha", nos termos seguintes:


«Foi um Manuel Alegre entusiasmado aquele que apresentou ontem à imprensa, em Coimbra, um balanço da sua candidatura a secretário-geral do PS. "Podemos falar em onda, que neste momento está a atravessar o país, dentro e fora do Partido Socialista", disse. Segundo o candidato, "há pessoas que nesta altura se estão a filiar ou a refiliar no partido". Um movimento que considera "moralmente reconfortante" e que o obriga a corresponder às expectativas: "Esta candidatura criou uma esperança e isso redobrou a minha responsabilidade."

E pelo menos no que toca a presenças para ouvir os três candidatos, Manuel Alegre considera-se à frente de João Soares e José Sócrates. "As salas têm estado cheias em toda a parte, as nossas sessões têm tido mais pessoas do que os outros candidatos juntos." Perante este clima, sente "grande nervosismo" nos seus adversários. "O que me parece é que alguns camaradas estão com medo de não ganhar." E referindo-se em concreto a José Sócrates: "Compreendemos que haja um certo nervosismo porque pensavam que havia um candidato com uma passadeira vermelha."

Durante a campanha terão chegado relatos à candidatura de militantes que foram ameaçados de perder o emprego caso votassem em Manuel Alegre, o que suscita a sua indignação e uma correcção. "Nunca fiz nenhum ataque aos autarcas do Partido Socialista. O que temos dito é que não aceitamos situações pouco claras dentro do PS. Ninguém me calará, nem ninguém me impedirá de dizer o que ouvimos", afirmou. Na sua opinião, a "falsa acusação" de que teria atacado os autarcas do PS, faz parte de uma estratégia de "intimidação" e "auto-vitimização" por parte da candidatura de Sócrates.

O vice-presidente da Assembleia da República referiu-se ainda a Jorge Coelho, que o acusara de ser favorável a uma "frente de esquerda". "Nós nunca defendemos uma frente de esquerda, o que disse é que se não tivéssemos uma maioria absoluta, devíamos criar condições de governabilidade", clarificou, exortando Sócrates a esclarecer este ponto. Por último, considerou "absurda" a hipótese de desistir da corrida à liderança do PS a favor de João Soares. A.R.

Publicado por Manuel Alegre às 09:17 PM | Comentários (11)

setembro 03, 2004

O VERDADEIRO PS

Na sequência do pedido de demissão do Dr. Ferro Rodrigues de secretário-geral do PS, abriu-se o processo de eleições internas a fim de eleger um novo líder no congresso, que se irá realizar no primeiro fim de semana de Outubro na cidade de Guimarães. Esse líder irá ser eleito pelo voto directo dos militantes que neste momento constituem o universo Socialista, tendo no seu campo de escolha três candidatos, que concorrem num acto de salutar pluralismo democrático, e que se espera trazer um novo impulso ao debate político nesta era do unanimismo e conformismo dominante. A candidatura de Manuel Alegre constitui o renascer do verdadeiro Partido Socialista, adaptado aos novos desafios desta sociedade de globalização desregulamentada. É um realinhamento político urgente e necessário nesta época de fuga sistemática dos vários partidos de poder, entre os quais, o Partido Socialista para o chamado “Centro Político”, esse chavão que é utilizado para aplicar certas medidas de mera continuidade do modelo implantado na civilização ocidental, e cujo os resultados estão á vista; o desemprego dispara para valores nunca vistos, a pobreza e a exclusão aumenta, a criminalidade dispara em todos os parâmetros, a riqueza concentrada é maior nos mesmos agentes que a detinham, os interesses económicos sobrepõem-se a qualquer outro tipo de interesse, o valor do ser humano é medido pela quantidade de bens materiais que possui, e não por valores de mérito, conhecimento, e de ética.
A moção de orientação política apresentada por Manuel Alegre é oportuna, corajosa, desprendida de qualquer interesse, e necessariamente de ruptura com a situação vigente, no PS, e por extensão no País. Os vários pilares em que assenta as suas propostas, são bem o exemplo disso. Um novo Contrato Social assente na igualdade entre mulheres e homens, assim como na promoção efectiva de uma Sociedade Cosmopolita e de Integração Total, a criação de um Seguro Social Obrigatório abrangendo todos cidadãos, a reconstrução do Rendimento Social de Inserção, a melhoria das protecções em caso de Doença, o acesso à Saúde Reprodutiva, o incremento numa política inclusiva de Habitação, o combate sem tréguas ás diversas formas de Pobreza em todas as suas vertentes, a revisão da lei de Bases da Segurança Social, a necessária consolidação das Finanças Públicas sem pôr em risco a Coesão Social de Portugal, a aposta num Ensino Público básico e secundário de grande qualidade, o desenvolvimento de Políticas de Segunda Oportunidade, e o combate á excessiva concentração dos media, para salvaguardar a necessária Liberdade de Informação de uma Sociedade Democrática. São ideias de um homem com um passado que fala por si, com grande cultura cívica, e com uma visão humanista actual e de futuro, dos problemas que a Sociedade contemporânea se confronta.

João Cardoso
Membro do Secretariado e da Comissão Política Concelhia do Partido Socialista de S.João da Madeira

Publicado por Manuel Alegre às 07:20 PM | Comentários (12)

setembro 01, 2004

"O que mudou no PS"- Helena Roseta faz balanço da campanha

Na edição do Público de 31 de Agosto de 2004, HELENA ROSETA
escreveu um artigo de opinião que vale também como balanço de campanha:

1. A eleição de um novo Secretário-geral do PS parecia estar decidida quando José Sócrates confirmou a sua candidatura. Estava tudo no seu lugar. Um candidato da continuidade guterrista, escolhido por meia dúzia de pessoas à mesa de um almoço na Curia. Sócrates estava destinado a repor ordem no PS, depois do intervalo de Ferro Rodrigues, perseguido como nenhum outro político em Portugal, mal amado pelo partido, etiquetado de "líder a prazo" apesar dos sucessivos êxitos eleitorais. O candidato da oposição interna, João Soares, também era previsível. Já se tinha perfilado durante o tempo de Ferro Rodrigues sem suscitar entusiasmo. O calendário da sucessão estava definido: em finais de Agosto estaria tudo decidido, no recato interno, longe das polémicas da comunicação social. O voto directo dos militantes pouco mais seria que uma ratificação. Tudo se passaria durante as férias e com as secções do partido encerradas.

2. A candidatura de Manuel Alegre alterou os dados do problema. Começou-se por convencer a Comissão Nacional do PS a alargar os prazos processuais para garantir um mínimo de participação. Depois Manuel Alegre apresentou-se como uma candidatura de mudança, no PS e no país. Propôs-se combater a visão aparelhística do partido, insistiu nos debates abertos à comunicação social. Sócrates reagiu mal, mas teve que ceder. Alegre foi o primeiro a apresentar a sua moção. Nela avançou, entre muitas outras propostas para modernizar Portugal, duas ideias-força: uma nova visão do papel do Estado e uma nova maioria política para governar.

3. Ao Estado mínimo que a direita defende e aplica, contrapôs Manuel Alegre o Estado estratega, com um papel relevante na definição de objectivos nacionais para o crescimento económico. Crescimento que é inseparável da inovação, o que implica que o Estado estratega seja também o Estado da inovação, capaz de garantir um processo tranversal de abertura à inovação e ao risco em toda a sociedade, o que é muito mais vasto do que o plano tecnológico de que falou Sócrates. As novas missões do Estado na economia vão muito além do simples papel regulador dos mercados, a que na década de 90 se reduziu o discurso socialista na Europa e em Portugal.

4. Manuel Alegre também falou com toda a clareza contra o "centrão". É sabido que o centro sociológico vai atrás das dinâmicas de vitória. Face à crise económica e social, o centro sociológico em Portugal está a "pedir" uma alternativa à governação da direita, como se viu nas eleições europeias. Não se combate a direita com mais do mesmo ou com uma simples alternância de poder. A estabilidade, para Manuel Alegre, pode construir-se à esquerda e essa é a missão histórica do PS nos próximos anos.

5. A recusa do centrão, o cansaço das pessoas perante a "alternância sem alternativa" e a frustração com a deriva tacticista da fase final dos governos minoritários de Guterres criaram condições para que as posições de Alegre desencadeassem uma nova esperança, não só no PS mas no eleitorado de esquerda. Tristes ou mesmo zangados com a decisão de Sampaio de reconduzir a direita no poder sem eleições, os eleitores da esquerda ouviram pela primeira vez desde o 25 de Abril um potencial líder do PS afirmar aquilo que nunca foi experimentado em 30 anos: a possibilidade de construir uma alternativa em que toda a esquerda se reconheça e que por isso mesmo possa mobilizar a maioria social e política do país.

6. Foi por perceber isto que Sócrates, para quem a ideia do diálogo à esquerda era tabu, acabou por mudar de ideias e incorporar esse diálogo na sua moção, embora de forma sub-reptícia. A candidatura de Alegre conseguiu assim mudar a agenda do PS. E ao mudar a agenda do partido, criou condições para mudar o país.

7. Não se consegue mudar o país se não se mudarem os partidos que dominam o espaço da decisão política. Maus partidos fazem uma má democracia. E com má democracia não pode haver verdadeiro desenvolvimento económico, cultural e social. Por isso as propostas de Manuel Alegre para a reforma interna do PS são radicais. Lutar contra o aparelhismo, criar mecanismos de participação permanentes, aumentar a transparência interna, instituir a paridade de género a todos os níveis, pôr termo à acumulação de mandatos, obrigar os eleitos partidários a apresentar declarações de interesse, cortar com a cumplicidade ou mesmo promiscuidade entre comissões concelhias, autarquias e construção civil. São propostas que incomodam mas que estão a gerar uma onda de grande adesão junto de militantes e simpatizantes socialistas. Basta acompanhar as acções de Manuel Alegre no terreno para verificar isso. Salas cheias em todo o lado, entusiasmo e militância contrastam com a campanha morna do candidato "oficial".

8. Tudo isto faz prever que as eleições do PS possam trazer resultados surpreendentes. Maior participação, menor abstenção, podem alterar todos os cenários. Nenhuma vitória antecipada está garantida. A vitória a que Manuel Alegre se referia, ao dizer que a sua candidatura "já ganhou", é outra: já mudou a agenda e já fez renascer a esperança. Seja qual for o resultado do Congresso, Manuel Alegre já averbou um sucesso imprevisível há um mês atrás. Acabou com o tabu da impossibilidade de uma maioria de esquerda em Portugal. E isso pode vir a mudar tudo.

Publicado por José Magalhães às 07:31 PM | Comentários (11)